Carreira
X Sobrevivência
Como os nossos universitários
encaram a realidade
profissional na América?
Artigo do jornalista Fabio Lobo, publicado no Jornal
Brasileiras & Brasileiros - edição
de Novembro de 2003.
“Você já reparou como todo carioca morava na Barra, Leblon
ou Recreio, antes de vir para os Estados Unidos limpar banheiro?” Esta
velha pergunta acaba de renascer entre os brasileiros na América, principalmente
após a febre consumista da novela global Mulheres Apaixonadas, encerrada
no início do mês passado. A trama, que, vale dizer, surpreendeu
pela originalidade e uniu o país em torno de importantes questões
do cotidiano, também nos empurrou garganta abaixo um Brasil fabricado,
pomposo e desconhecido pela maioria da população. Claro que a nossa
abertura de texto reflete uma brincadeira, uma provocação bem-humorada “contra” os
nossos irmãos do Rio, que sempre encaram tudo no maior alto astral. Sem
dúvida, Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes são regiões
da capital fluminense onde o padrão de vida é de primeiro mundo;
discordar disso seria absurdo. Mas não é o glamour da cidade maravilhosa
que está em questão.
O ponto aqui é perceber como algumas “piadas” caminham de
braços com a situação real, cutucando as feridas do contrastante
reino tupiniquim. Existem “Leblons” espalhados por todo o território
nacional, distantes dos grandes centros ou mesmo encravados neles, dividindo
espaço com palafitas. Lugares que sustentam uma riqueza frágil,
ameaçada pela volatilidade econômica e pela fúria da corrupção
e exclusão social. A palavra estabilidade, cujo significado prático
já foi “vencer na vida”, simplesmente caiu, dando lugar a
uma batalha desenfreada por espaço.
Até aí, nenhum ovo de Colombo. Quem nasceu no Brasil conhece a
história toda de cor. Mas a triste novidade, que destruiu o nosso ecossistema
conjuntural, foi o brutal aumento dos predadores em relação às
presas. Em síntese, quem entrou no “novo esquema”, entrou.
Caso contrário, é hora de se virar. O dinheiro sumiu, o mercado
de trabalho encolheu, os clientes não aparecem mais, e o primo deputado
foi cassado. Você ainda duvida que muitos moravam mesmo na Barra, antes
de vir para os Estados Unidos limpar banheiro?
Definitivamente, somos a nação que mais desperdiça conhecimento
e talento. A falta de estrutura para absorver o gigantesco contingente de mão-de-obra
disponível, faz com que a porcentagem de “doutores” mergulhados
na informalidade progrida geometricamente. Tem muito universitário vendendo
pipoca no Brasil. E mesmo assim, quando o cinema fica vazio e a sobrevivência
da família é ameaçada, nossos médicos, dentistas,
advogados e psicólogos acabam encontrando no exterior uma espécie
de “última chance.” A princípio, é difícil
entender como alguém que estudou vários anos para construir uma
carreira, simplesmente chuta tudo e sai do país. Há quem diga que
a decisão é radical, fruto de falta de coragem ou habilidade profissional
para competir no mercado. Mas as notícias mostram o contrário:
o sistema econômico brasileiro é cruel; os juros são astronômicos
e acabam com as possibilidades de recuperação de quem está em
dificuldade. Embora se perceba certa euforia no campo do comércio
internacional, o caos ainda parece muito perto.
O desemprego na grande São Paulo está em torno dos (desesperadores)
20%. O salário mínimo não chega a 100 dólares mensais
e a violência está fora de controle. Todos os dias, pais de família
perdem a vida por conta de um par de sapatos ou um automóvel. População
e autoridades apenas observam, imobilizadas pelo medo e pela incompetência
administrativa. A corrupção reina absoluta, e continua seduzindo
desde síndicos de prédio, que desviam tímidas quantias dos
fundos de obras, até grandes cérebros de renomadas instituições
financeiras e governamentais. Os jovens, mesmo os recém-formados em universidades
de alto padrão, terminam obrigados a trabalhar de graça, motivados
pela cínica “chance de adquirir experiência.” Quase
não há programas de incentivo à educação de
base, muito menos política definida de encaminhamento profissional. Recentemente,
um concurso para gari (isso mesmo, uma seleção para varredores
de rua), promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro, transformou-se em cena
lamentável, digna de enrubescer o mais patriota dos seres: milhares de
pessoas, boa parte com nível superior no currículo, passaram noites
na fila, a espera da entrevista. A impaciência, motivada pela necessidade
de conquistar a vaga, gerou tumulto. A polícia usou bombas de efeito moral
e balas de borracha, na tentativa de organizar a multidão. O salário
oferecido? R$ 600 por mês.
O B&B pergunta: é melhor preservar o status social de certas profissões,
convivendo com os riscos de um Estado frágil; ou o negócio é batalhar
em uma nação de primeiro mundo, onde qualquer emprego garante ao
menos integridade física e dignidade material? O que fazer quando a falta
de experiência (no caso dos recém-formados), a competitividade (para
os expelidos do mercado), a decadência (que destrói quem não
se recicla), ou simplesmente o “saco-cheio”, sufocam o sonho de uma
carreira brilhante? Como fica a cabeça do médico que, de repente,
se vê lavando pratos? Quais são (ou foram) as principais dificuldades
e o que mais dá saudade da “antiga” vida no Brasil? Ser feliz é possível
ou a idéia de voltar atormenta? E a profissão original, fica para
trás ou há chance de retomá-la em solo estrangeiro? Este
mês, entrevistamos pessoas que passaram por reviravoltas de vida nos EUA.
Confira as histórias.
Edson Dias, contador,
programador de computadores e desenhista arquitetônico, veio para a América
em busca de reconhecimento profissional, movido pela certeza de encontrar
maiores oportunidades. Atualmente, como motorista da Disney, pensa de
outra forma: “Eles (os americanos) querem mesmo é fazer
dinheiro em cima do seu trabalho. Quando percebi isso já era tarde;
havia perdido a identidade com o Brasil e não podia deixar de
ajudar meu filho lá.” Edson, que antes de vir respondia
pela parte contábil de uma importadora de vidros, encarou aqui
diversos subempregos, entre eles o de lavador de pratos. “Lutei
muito, e só consegui continuar porque estava bem preparado física
e psicologicamente”, lembra. O carioca teve uma experiência
familiar desagradável, quando sua esposa recusou-se a acompanhá-lo
em busca do sonho americano. “Ela viria seis meses após
a minha chegada, mas acabou desistindo. Fiquei sozinho, com a responsabilidade
de sustentar uma criança de dez anos no Brasil.” Sobre retomar
a carreira, Dias descarta a possibilidade: “Tudo é diferente,
principalmente as leis. Muito difícil.” Ele confessa que
sente falta da vida social que tinha no Rio, pois lá “saía
com os amigos, viajava, velejava e tudo mais; aqui não faço
sequer um exercício físico. São 14 anos só trabalhando;
até o colesterol aumentou.” Mas nem tudo é negativo
para Edson Dias. Ele se mostra feliz por ter “entrado em contato
com Jesus” na América, e por viver em um país que
garante os direitos do cidadão. “Não dependo mais
do homem, e sim de Jesus”, afirma. “E tenho o privilégio
de viver num lugar seguro, onde posso contar com a Justiça e as
autoridades”, finaliza.
O dentista Jandir Bernardo Silva Jr.
não veio por dinheiro. Ele nos conta que, em Recife, possuía uma
clínica com 16 salas e extensa carta de pacientes. Além disso,
ainda era contratado do governo municipal há 12 anos. “Eu estava
mesmo é de saco cheio. No nordeste, as pessoas falam muito em sofrimento
e problemas; isso não me faz bem.” Jandir gosta de dizer que “quem
tem raiz é árvore”, e lembra que se aventurou por diversas
profissões e lugares diferentes, até vir para os Estados Unidos.
Aos 15 anos de idade, estudou em New Jersey por oito meses, quando
se interessou
pela organização dos americanos. “Antes da odontologia, fiz
engenharia e tive um restaurante, um bar, óticas e bancas de jornal. Mas
o que me interessa mesmo na vida é buscar aprimoramento moral. Profissão é pura
prática.” Nos EUA, trabalhou com limpeza e como ajudante de cozinheiro.
Hoje possui uma van de sorvetes, e atende crianças em regiões menos
favorecidas. “Gosto de lidar com o povo”, exclama Bernardo. O pernambucano
já tentou retomar sua profissão original aqui, mas as barreiras
do idioma, os custos elevados e os planos de retornar ao Brasil o fizeram desistir.
Para quem quer ficar, mas ainda sofre com a questão profissional, o dentista
deixa um conselho: “o melhor é combater o sofrimento e viver um
dia de cada vez, perseguindo os sonhos e aproveitando esta chance de se reencontrar
com a humildade”.
Fabiana Cerqueira, engenheira
elétrica de sistemas, assimilou com tranqüilidade a reviravolta
profissional: “Sou muito adaptável. Onde Deus me manda,
fico bem. Vim para casar, pois meu marido estava aqui há muito
tempo. Sempre fui consciente de que não teria certas regalias,
como ficar em casa por doença ou aproveitar finais de semana inteiros.
Mas sempre lidei bem com isso. Pensei até que as coisas pudessem
ser piores, e graças a Deus, não foram.” Fabiana,
que hoje trabalha com remessas de dinheiro, entende que qualquer trabalho
tem mais valor que status social: “O importante é se expandir,
viajar e conhecer novas realidades. Se você teve o privilégio
de estudar e continuar na área, ótimo. Se não, é fundamental
manter-se trabalhando com dignidade, fazendo tudo da melhor forma possível”,
ressalta. Mas a ex-consultora da Xerox confessa sentir saudade da estrutura
trabalhista brasileira, que oferece muito mais benefícios que
a americana. E pretende retomar a carreira construída no Brasil: “Por
enquanto, aplico meus conhecimentos de acordo com a nova realidade de
trabalho. Mas não vou jogar fora anos de estudo e especialização.” Ela
faz questão de encerrar com palavras de gratidão ao Criador: “Com
Deus você sempre é feliz, não importa onde nem o
que faça.”
Getulio Oliveira, administrador
de empresas formado pela Universidade Federal do Pernambuco, entende
que não vale a pena insistir na América. “Quando
vim para cá, achei que estava tendo uma oportunidade. Porém,
depois de conhecer a verdade das coisas, cheguei à conclusão
de que prefiro estar no meu país. Lá sim somos cidadãos,
mesmo com todas as dificuldades e problemas. Lá posso exercer
minha profissão; aqui não. O Brasil é a minha casa.” Nos
Estados Unidos, Getulio já trabalhou em uma lavanderia, e hoje é “houseman” de
hotel. Ele assume que se sente diminuído ao “tirar roupa
suja do carrinho das camareiras” e trabalhar ao lado de pessoas
que não sabem escrever o próprio nome. Ex-funcionário
do Unibanco, Oliveira admite que a falta de fluência no idioma
inglês, a distância da família e os tipos de trabalho
destinados aos imigrantes são os fatores que mais o desencorajam. “Tenho
saudade da minha liberdade; de fazer o que gosto e praticar o que
estudei durante a vida toda.”
“Resolvi mudar para me reencontrar com a paz interna, depois de viver situação
trágica na família”, afirma o cirurgião facial Alfredo
Botelho. Segundo ele, que hoje se considera feliz, o conceito
de êxito na América varia de acordo com cada propósito. “Tem
gente que só vem pra fazer fortuna (chegando até a morar com dez
pessoas num apartamento), e outros que procuram expandir horizontes e viver bem.
São casos totalmente diferentes”, compara. O médico nunca
se incomodou em trabalhar fora da área de formação, e compreende
que, nos dias de hoje, “status não importa; o que vale é alcançar
a satisfação.” De acordo com o carioca, todo trabalho é digno: “Especialmente
aqui, onde se consegue as coisas em muito menos tempo. Não é nenhuma
vergonha trocar o diploma por algo que dê mais retorno.” Botelho
lembra que já veio preparado psicologicamente para “começar
por baixo”. Lavou pratos, foi “houseman” e também passou
por uma lavanderia. Hoje é gerente de área de uma empresa hoteleira,
respondendo por toda a região de Tampa e Clearwater. “Sempre tive
jogo de cintura para perceber que os problemas do começo eram parte de
um processo, iniciado a partir da decisão de viver nos Estados Unidos.
Isso ajudou muito.” Alfredo Botelho tem planos de voltar a atuar na área
da saúde, mas “devido aos trâmites burocráticos que
envolvem a decisão, o projeto está temporariamente adiado.”
Ronaldo Carvalho atuou
como arquiteto e psicólogo no Brasil. Também estudou comunicação
social, chegando a escrever para um jornal. Em determinada época,
largou tudo para se dedicar a uma grande paixão: voar. Por mais
de 10 anos, foi comissário de bordo da Transbrasil. Já conhecia
os EUA, pois sempre vinha pra cá com a família. Em uma
dessas viagens, prometeu “que ganharia dinheiro nesta terra.” A
Tranbrasil quebrou, e a oportunidade de cumprir a promessa apareceu de
repente. Hoje em dia, Ronaldo trabalha na portaria do parque Wet’n
Wild e no South Gate Hotel. Abriu mão de todas as suas habilidades,
mas não sofreu nenhum trauma com a transição: “em
termos de condição de vida, educação geral
e moradia, os EUA dão um banho no Brasil. Aqui não há discriminação
por idade ou raça, e quem se forma na universidade tem muito mais
condição de atuar na área.” Carvalho diz que
atingiu maturidade suficiente para entender que “títulos
e cargos não enchem barriga.” E afirma que seria capaz de
repetir toda a “aventura” novamente.