Artigo com fotos:
http://moncores.spaces.live.com/Somente fotos:
Salzkammergut -
http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157623381493269/Hallsatt -
http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157623437104628/Attersee -
http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157623375106931/Salzkammergut, Austria - Abril de 2009
Um dos meus objetivos ao visitar a Áustria - além de visitar Viena - foi realizar uma road trip em meio aos Alpes. A região escolhida, Salzkammergut ou Country Lake, combina o que há de melhor em termos de cenário idílico em um clima perfeito: imensas montanhas, muito verde, neve, flores deslumbrantes, cidadezinhas típicas e, naturalmente, lindíssimos lagos. Tudo isso na Primavera! O plano original, viajar de Viena à Salzburg cruzando esse cenário de sonhos, funcionou como um relógio. Nada deu errado e o tempo cooperou por três dias. Essa conjunção de fatores proporcionou algumas das mais belas fotos que tirei em toda minha vida. Material para a revista Geográfica Universal mesmo. Bem, com toda essa matéria-prima à minha disposição e uma Nikon D40 à tira-colo, não fiz mais que a obrigação...
Se você quiser seguir meus passos - objetivo 100% válido antes de morrer - você precisará de três itens fundamentais. O primeiro, um par de botas decentes para hiking. Recomendo a marca Vasque por trazer a melhor combinação bom-e-barato. Acredite em mim quando digo que outras marcas podem chegar a centenas de dólares. As botas servirão para você enfrentar caminhadas em terreno selvagem, morro acima e em terreno acidentado - muitas vezes coberto de neve (ok, fui na primavera, mas não esqueça da combinação altitude + latitude alta). Você precisará de conforto, isolamento térmico e solado especial. O segundo componente essencial para a aventura: um GPS. Detesto guias turísticos. O GPS proporciona independência e segurança. Durante toda a viagem em nenhum momento me senti apavorado ou perdido, mesmo quando explorava lugares completamente ermos, sem uma única alma viva à volta. Depois de testar algumas marcas, minha predileta acabou sendo a Garmin - mapas confiáveis e fácil de usar e carregar. O terceiro e último item da road trip tem que ser obviamente um carro. Alugar um 4 x4 não é necessario para navegar pela região de Salzkammergut, já que todas as estradas - mesmo as secundárias e "terciárias" - são asfaltadas. Primeiro mundo perde... No meu caso, para economizar, tinha reservado um modelo subcompacto e standard para recolher no aeroporto de Viena. O atendente da Hertz não conseguiu encontrar minha reserva, feita com 4 meses de antecedência pela Internet. Eu estava prestes a explodir em fúria, quando ele me disse: "Sinto muito senhor, mas podemos compensar todo o trouble causado com esse modelo aqui..." E então o sujeito da locadora me entregou as chaves de um... Audi A4. Minha mulher vive dizendo que sou um sortudo miserável...
Dirigir na Áustria é uma experiêcia que proporciona prazeres multiorgásmicos. E não falo somente do já citado "tapete" de asfalto onde quer que você vá, mas também: por causa dos motoristas habilidosos e ultra educados; pistas de alta velocidade onde você pode manejar a quase 150 kilômetros por hora dentro da lei; sinalização impecável; convivência harmoniosa de carros, pedestres e ciclistas; ausência de polícia e radares (se existem, se escondem bem pra cacete); inexistência de pedágios caça-níqueis; e cenários alpinos diante do pára-brisa 100% do tempo, todos um desbunde só. Civilização, enfim. Para quem já experimentou como eu as ruas do Rio, Curitiba, Salvador, São Paulo, Lima e Cidade do México, a pergunta recorrente em sua cabeça enquanto dirige na Áustria acaba sendo: "Será que eu morri e fui para o Céu?"
Salzkammergut em alemão significa "terra dos depósitos de sal", nome plenamente justificado pela imensa quantidade de minas de sal da região, fonte de riqueza para os reis da dinastia Habsburg por centenas de anos (e até para tribos célticas, antes mesmo dos Romanos) . Lembrem-se que até o início das grande navegações e a consequente descoberta de novos fornecedores de especiarias, para temperar comida a única coisa decente que os cozinheiros tinham à mão era sal. E a realeza austríaca controlava boa parte das minas produtoras desse produto na Europa. Só mais recentemente, depois da 2a Guerra Mundial, os austríacos descobriram o potencial turístico da região, ideal para passeios, iatismo, prática de esportes aquáticos, banhos de sol, escaladas, ciclismo, hiking, atividades de inverno e muitas outras oportunidades de lazer. A Áustria possui mais de 300 lagos, fruto de antigas geleiras que derreteram e formaram montanhas e imensas áreas de água doce. Os maiores e mais impressionantes lagos do país se concentram aqui, na região que me aventurei. E posso dizer que, assim como a praia Lanikai no Hawaii e as Montanhas Rochosas no Colorado, o Country Lake dos austríacos é um daqueles lugares no planeta que facilmente te trarão lágrimas aos olhos quando você se deparar pela primeira vez com seus cenários de beleza rara e extraordinária.
Comecei minha jornada circundando o lago Attersee, a primeira e maior jóia dentre várias de tremenda beleza natural de Salzkammergut. Trata-se de um imenso bloco de água doce de dimensões 3 x 20 quilômetros que nunca congela no Inverno (ao contrário de todos os outros lagos da região). Suas águas são excepcionalmente claras, ideais para mergulho autônomo. No final do século XIX, a aristocracia vienense adorava gastar seu (extensivo) tempo livre por aqui. A estrada à volta do lago - como na maior parte de minha road-trip - fica espremida entre as montanhas e a água, sempre acompanhada pela onipresente ciclovia e por pequenas áreas para piquenique às margens do lago, com suas mesas em madeira rústica. Como passeava no ínicio da Primavera - completamente fora de temporada (Jun-Ago), praticamente tive a estrada só para mim, e frequentemente encontrei vilarejos de incrível beleza, como que abandonados, parecidos com uma cidade fantasma. Explica-se. A maioria das casas de veraneio e hotéis se encontravam vazios e, consequentemente, praticamente não havia movimento ou comércio. Os ínúmeros iate clubes que pululam Attersee não tinham qualquer atividade e as dezenas de barquinhos se encontravam ali apenas para posar para fotografias.
Dá para gastar várias horas de seu passeio somente explorando as cidadezinhas às margens do lago. Minha primeira parada, Litzlberg, possui uma grande área totalmente gramada e com árvores às margens do lago, onde os locais se dedicam ao banho de sol e a um mergulho ocasional, vestidos como se estivessem em uma praia oceânica. Pequenas docas dão um tempero único ao local. A próxima cidade, Seewalchen, tem uma série de casas construídas em madeira, tão próximas da água cristalina que parecem ilhotas caribenhas dotadas de pequenos ancoradouros. A cidade oferece também um grande lugarzinho para comer uma das especialidades da cozinha local, o filé de truta empanado. O Kapsreiter Cafe não serve porções imensas - péssimo hábito austríaco - mas a salsicha acompanhada de mostarda apimentada, tradicional aperitivo do país, compensa um pouquinho. Depois de alguns dias na Áustria você acaba se acostumando com o jeito espartano deles de servir os pratos, sem muitas firulas e acompanhamentos. Ótimo para seguir uma dieta enquanto se passeia de férias.
Na sequência, passei por Kammer, cuja maior atração é o encontro do lago Attersee com o rio que batizou a cidade. Grande visual da ponte que cruza o rio. Aliás como um rio próximo a uma área urbana pode ser tão ridicularmente limpo? A próxima cidade do circuito lacustre chama-se Weyregg, uma das mecas dos praticantes do esqui aquático e do windsurfe na alta temporada. Reune uma das maiores quantidades de hotéis do lago Attersee. A cidade de Steinbach vem em seguida, com sua linda igreja no alto do morro gramado. Aliás, vale muito à pena fazer uma detour aqui, subir a colina de carro por uma estradinha sinuosa e curtir o visual de tirar o folêgo lá de cima, tanto do lago, quanto das montanhas. É muito legal perceber na paisagem a harmonia, o jeito que as cidades da região de Salzkammergut se mesclam com suas pequenas fazendas, sem nos deixar perceber quando termina uma e começa a outra.
A outra cidade na rodovia, Weissenbach, chama atenção pela proximidade das altas montanhas, que parecem debruçar-se sobre a rodovia e o lago. Bancos de madeira na beirinha desse último são um convite à comtemplação ou a um namorico de fim-de-tarde. Alguns quilômetros depois, você chega em Unterach, uma vila que se assemelha na verdade a um grande iate clube, tamanha a quantidade de barcos à vela nas docas. Áreas de lazer e parques para crianças espalham-se por toda a margem e o que mais se vê são famílias inteiras - pequenos e adultos - passeando de bicicleta. O quadro todo em minha cabeça simulava um comercial de margarina, de tão perfeito. Será que é muito caro morar aqui? Se tiver um tempinho, pegue uma das ruas que saem da estrada em direção as montanhas, para desfrutar de vistas panorâmicas da região. O pôr-do-sol que assisti em um dos hotéis "abandonados" da cidade acabou se tornando um fecho de ouro para um dia inesquecível.
Veja aqui fotos em alta resolução de Attersee:
http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157623375106931/À noite decidi jantar na famosa cidade austríaca de Bad Ischl, outro grande produtor de sal no passado austríaco e reduto da realeza Habsburg. Tanto que o nome do restaurante mais indicado pelos locais chama-se Cafe-Bar Sissy, um lugar bem aconchegante e ricamente decorado, a ponto de te deixar assustado e pensando que vão te tirar as calças. Decidi experimentar um dos pratos típicos austríacos, o Rindsgulasch, feito de carne cozida em um molho de tomate, cebola, gordura animal, páprica, cominho e um pouco de farinha de trigo e creme de leite. O sabor e a quantidade no prato foram ambos ridículos, mas por motivos diferentes: meu lado gourmet saiu satisfeito, mas o estomago saiu roncando e, meu bolso, vazio. O Gulasch foi inventado na Hungria, que fez parte do império (Austro-Húngaro) por muitos séculos. A refeição que fiz aqui acabou me tirando o trauma de comer Gulasch, obtido do tempo que eu trabalhava de estagiário na unidade de fabricação de medidores de energia da General Electric, no Rio. Eles serviam no bandejão uma vez por semana uma massaruca de carne de quarta cheia de nervos, que eles chamavam de Gulasch. O troço era tão horrivel que só de olhar a comida pela primeira vez você pensava: "já pisei nisso, mas nunca comi..."
A partir do século XIX a cidade de Bad Ischl tornou-se um SPA para a realeza e os ricaços de Viena. O imperador Franz Joseph I (o maridão da Elizabeth da Bavaria, a popular Sissi) escolheu o local para construir seu palácio de Verão - Kaiservilla (não tive tempo de visitar, mas os locais dizem que vale à pena) - que ele descrevia como "Paraíso na Terra". Provavelmente não pela paisagem, mas por ser a alcova onde transava com sua amante, Katharina Schratt. Hoje o palácio abriga as descendentes dos Habsburgs - todos de "sangue azul" - que - pasme - têm parentesco com alguns membros da "realeza" brasileira em... Petrópolis! Eu troquei alguns e-mails com um dos "gerentes" da Kaiservilla que não só confirmou essa informação, como me cedeu algumas fotos bacanas do palácio. Franz Joseph I nunca foi uma unanimidade entre os austríacos. A maioria enxerga nele somente os últimos anos, considerando-o um soberano generoso e benevolente, uma espécie de vovô da nação. Uma minoria mais esclarecida reconhece nele um reacionário sanguinário, que devotou boa parte de sua vida a uma guerra contra a liberdade de religião (ele era católico), além de ser um sujeito mesquinho com um gosto duvidoso em termos de arquitetura. Creio que o fato do tempo de seu governo corresponder ao boom Austríaco em termos econômicos e culturais, mas o seu casamento com a princesa mais linda da Europa na época, deram uma mãozinha a sua popularidade positiva que permanece até os dias de hoje.
Depois de passar à noite em uma cidade próxima de Salzburg (mais detalhes na minha próxima entrada do blog), dirigi o Audi bem cedinho para o lago Fuschlsee, tão limpo que serve de reservatório de água potável para toda a região. Além da beleza natural, buscava um dos mais famosos hotéis de Salzkammergut: o Hotel Schloss Fuschl, um lodge para caça de um poderoso bispo local construído em 1450 e transformado em hotel cinco estrelas. Realeza, alto clero, políticos, celebridades passaram (e passam) por aqui amiúde. Nazistas de alta patente também frequentaram o lugar. Entrei e explorei a propriedade aparentemente deserta sem ser incomodado uma única vez. E olha que eu tenho a aparência e o tamanho de um assassino de slash movies! A posição privilegiada do complexo, bem diante do lago, proporciona panoramas quase sobrenaturais de tão belos. A área coberta pelo hotel é vasta, incluindo suas próprias trilhas selvagens de centenas de metros de extensão. A decoração interior compõe-se de diversos estilos, do barroco aos estilo renascentista. O hotel tem uma frota própria de limousines e Rolls Royces dedicada a levar seus hóspedes em excursão pela região. Docas privadas guardam toda sorte de barcos para uso exclusivo dos hóspedes no lago Fuschlsee, incluindo para expedições de pescaria. O campo de golfe do hotel é considerado o mais bonito da Áustria por causa da paisagem. Mas tudo isso obviamente não sai baratinho: a diária mínima custa US $ 470 e a suite mais cara, chamada "Castelo", sai pela miséria de US $ 1,400 por noite. Definitivamente não é para você, leitor pobre... (se serve de consolo, sempre existem as fotos!)
Saindo do hotel e seguindo pela rodovia principal na direção Sul, chega-se à cidade de St. Gilgen, às margens do lago Wolfgangsee, de 13 quilômetros quadrados e 15 quilômetros de extensão (muito delgado). Como sempre, só a cidadezinha e o lago merceriam uma exploração mais detalhada, mas como tinha muita coisa para ver de acordo com meu planejamento, decidi ir direto para a grande atração da localidade: um bondinho que te leva das margens do lago ao topo da montanha Zwölferhorn que se eleva acima de St. Gilgen. O lugar é tão alto (1,800 metros de altitude) que o bagulho leva 30 minutos para chegar até o topo - coberto de neve eterna, por sinal. De lá de cima você consegue ver claramente a cidade e o lago em toda a sua extensão. Se tiver paciência de andar na neve (afundando meio metro a cada pisada), driblar os esquiadores e seguir uma trilha selvagem de 15 minutos, poderá chegar do outro lado do pico e curtir uma cadeia de montanhas nevadas impressionante. Viu? Eu disse que as botas era um item essencial... Simplesmente não dá para vencer essa trilha de tênis.
Desci a montanha de teleférico e segui viagem costeando o lago Mondsee em direção à cidadezinha de mesmo nome. Lá matei minha fome almoçando em uma das mesas exteriores do restaurante do hotel Schlossbrau Kirchenwirt, à sombra de uma bela árvore. A baixa temporada não impediu-me de curtir a refeição enquanto observava o movimento significativo de locais na praça da igreja matriz da cidade. Nesse estabelecimento eu comi outro prato típico Austríaco - o Kasespatzle - por apenas US $ 7 (muito baixo para padrões europeus). À primeira vista parece um Mac n' Cheese sem vergonha, mas trata-se de um tipo de gnocchi fininho frito feito com farinha de trigo, ao molho de queijo gruyere ralado. Muito, muito bom. A porção servida foi razoável e o atendimento de primeira. Para sobremesa, dei uma passada na legendária confeitaria da cidade, famosa por suas tortas e doces típicos (e também pelo preço "especial" cobrado dos turistas), a Frauenschuh Konditorei. Cuide para não babar no teclado ao navegar pelo site desse templo da perdição.
A principal atração de Mondsee é a Basilika zum Hl. Michael, onde as cenas do casamento de Frau Maria no clássico The Sound of Music (A Noviça Rebelde) foram filmadas. Essa basílica de estilo barroco tem esculturas em madeira excepcionais e cuidadosamente preservadas, feitas pelo artista Meinrad Guggenbichler e seus pupilos. Ela possui duas torres de 52 metros cada e foi construída no século XV, por uma ordem Beneditina. Como em todas as igrejas que visitei na Austria, a sensação é que você voltou no tempo, dada à qualidade da manutenção e restauração da decoração interior. Decididamente a mais bela igreja que visitei em toda Áustria (e foram muitas, você sabe...)
Deixei a cidade em direção à Gmunden, às margens do lago Traunsee. No caminho parei algumas vezes para fotografar a paisagem alucinante, começando pelas margens do lago Mondsee - 2 x 11 quilômetros de extensão e rodeado por imensas montanhas. A águas do lago são bem mornas, 27 graus em média, excelente para esportes aquáticos ou simplesmente para um mergulhão. Dizem a lenda que o Duque Ordilo estava caçando nas montanhas da região e, pego de surpresa pela escuridão súbita da noite, escorregou de um penhasco e quase morreu, sendo salvo no último segundo pela iluminação da lua cheia que saiu detrás de uma nuvem: ele foi capaz de definir os contornos do lago abaixo e das pedras ao seu redor, conseguindo um lugar seguro para escalar de volta em segurança. Batizar o imenso lago recém descoberto de "mar da lua" (Mondsee) foi um pulo. Saindo da rodovia que circunda o lago, mais adiante em uma estrada chamada Kienklause, montanha acima, descobri um pequeno pedaço de paraíso: Landschaftspark at Kienklause, um parque selvagem à volta de um pequeno lago de beleza inebriante. Se o paraíso tem lugar para fazer piquenique com os entes queridos que já morreram, é esse. Como sempre, as fotos não representam a verdadeira dimensão do lugar, mas dá para se ter uma idéia mesmo assim. A vida animal é abundante, mas quase não existem insetos xexelentos (creio que por causa da altitude e temperatura). A única coisa chata aqui foi quase pisar em um casal de sapos fazendo sexo, o que seguramente faria alguem mais fresco jogar a bota fora.
Finalmente cheguei à cidadezinha de Gmunden, por séculos (e ainda hoje) uma grande produtora de sal de minas. Infelizmente, a cidade é mais lembrada como grande produtora de navio de guerras para a Alemanha Nazista e por hospedar uma grande maternidade da SS, que mantinha "protocolos" muito rígidos para assegurar que todos os bebes tivessem "pureza racial". Não preciso ir mais além e descrever em detalhes o que isso significa, certo? A grande atração turística de Gmunden, além da beleza típica de um vilarejo às margens de um lago da região de Salzkammergut, é a grande quantidade de palácios privados, espremidos entre as montanhas e o lago Traunsee. Os mais famosos: Schloss Cumberland, agora um centro de terapia; o Schloss Traunsee, atualmente uma escola; Schloss Freisitz Roith, transformado em hotel de luxo; e o único que escolhi visitar, o incrível Seeschloss Ort, um castelo construído em 1080 que fica em uma ilhota conectada à terra por uma ponte de madeira muito charmosa. Transformado em sede do Ministério Federal de Conservação Florestal (só mesmo em um país de primeiro mundo...), pode ser alugado para festas e casamentos. Também foi utilizado como cenário da novela mais popular já feita na Áustria: Schlosshotel Orth. Eu sei o que você vai perguntar e a resposta já deveria ser conhecida: os austríacos só conhecem a novela brasileira "Escrava Isaura"...
Seguindo a rodovia 145 ao longo das margens do lago Traunsee, dirigi-me à Ebensee que, comparada às outras cidades que visitei, não me pareceu tão espetacular. Não se engane: trata-se de outra cidade pitoresca austríaca à beira de um lago e no sopé de uma montanha. Mas depois de uma overdose de lugares espetaculares, você acaba não valorizando o que é só (!?) bonito. O lugar basicamente merece uma parada por duas razões: uma que gera prazer e outras como obrigação. Prazer de pegar uma estradinha de 9 quilômetros de extensão em meio à floresta de pinheiros, acompanhada por um rio que deságua em um lago calmo e tranquilo de águas verde turquesa e raro esplendor: Vorderer Langbathsee. Como era dia de semana e fora de temporada, não havia uma alma viva em quilômetros. A sensação de isolamento (que eu particularmente adoro) e paz foi verdadeiramente inebriante. Enquanto caminhava pelas margens do lago, tive a nítida impressão que por algum tempo saí desse mundo e me encontrava em alguma outra dimensão. Pois é, acho que preciso de terapia...
Em um constraste irônico, Ebensee tem seu lado negro. A obrigação de que falei anteriormente passa pela visita compulsória ao antigo campo de concentração nazista na cidade, agora transformado em memorial: KZ-Gedenkstätte Ebensee. Considerado um dos mais brutais e diabólicos campos já construídos durante a era nazista, trouxe a morte a 8,500 prisioneiros em apenas dois anos de existência. Em uma forma particularmente cruel de lidar com seres humanos, os austríacos e alemães que administravam o campo submetiam os detentos a um regime de 11 horas dia de trabalho escravo, em condições insalubres, sob frio brutal sem fornecer roupas adequadas e, naturalmente, sem alimentá-los decentemente. E não era um trabalho qualquer: falo de abrir túneis na montanha, ou basicamente, quebrar e carregar pedras... Trabalhar até a morte, enfim. O campo tinha o protocolo de praxe: soldados sádicos, cerca eletrificada, torres de vigilância equipadas com metralhadoras, quotas de execuções de excedentes para cumprir, etc. Como Ebensee não possuia seu próprio crematório, os corpos eram empilhados à espera de remoção. Sobreviventes descreveram o cheiro proveniente das pilhas de corpos putrefatos misturados com musgo, fezes e urina, como simplesmente insuportáveis. Bom ponto para reflexão. Como nós, seres humanos, pudemos fazer isso? Ou você é tão inocente a ponto de achar que o alemão nazista era Belzebu encarnado e não gente como você e eu? Pais de família que provavelmente brincavam alegres com seus filhos à beira do lago Vorderer Langbathsee, eram os mesmo sujeitos que torturavam e matavam prisioneiros ali perto. Em minha opinião, basicamente por essa razão o Holocausto deve ser lembrado e sua história contada e recontada a todas as gerações futuras: cada um de nós tem dentro de si o potencial para se tornar um nazista filho da [censored]. O Holocausto não pode acontecer de novo. Os austriacos em geral têm um grande problema em discutir o assunto. E olha que eu tentei em diversas ocasiões abordá-los sobre o tema... Para que se tenha uma idéia, somente nos anos oitenta, o chanceler Franz Vranitzky admitiu formalmente o papel ativo dos austríacos nos crimes cometidos pela Alemanha Nazista. Até então muitos deles pensavam (ou se enganavam) que a Áustria foi apenas mais uma "vítima" da Alemanha de Hitler...
Toquei meu Audi para a cidade de Hallstatt, às margens do lago Hallstätter e no sopé das montanhas Dachstein, o ponto alto de minha road trip pela região de Salzkammergut. Trata-se de um dos patrimônios da humanidade segundo a UNESCO, um pequeno vilarejo medieval inteiramente à beira do lago, tão, mas tão bem preservado, que nenhum carro pode passar por essa cidade de pedestres e ciclistas: os austríacos construíram um túnel por baixo da cidade que te leva ao outro lado da rodovia. As casas que a compõem Hallstatt ficam tão próximas umas das outras, que muitas só tem possuem acesso pelo lago. Ruelas se cruzam em meio aos telhados das casas. Bizarro e encantador, ao mesmo tempo. Um verdadeiro cartão postal vivo, não importa o tempo que esteja fazendo ou o ângulo em que você bata a foto. Gastei um entardecer e parte de uma manhã aqui. Predominantemente barroca em estilo, ela é muito antiga (fundada em 1311, mas com bases de 5,500 AC) e comprovadamente aqui surgiu a primeira mina de sal comercial da Europa. Mas tudo isso se torna apenas uma mera curiosidade ao se passear pela ruas, sentir o climão da cidade e visitar as duas pequenas igrejas: uma delas católica e construída no século XV, a Pfarrkirche; a outra Protestante e em arquitetura neo-gótica. Resumo da ópera: recomendo uma visita aqui como outra coisa a ser feita antes de morrer, caro leitor. Uma perfeita sinergia entre o cenário impecável (cortesia da Mãe Natureza) e o hábil trabalho dos humanos que construíram a vila. Programa absolutamente 100% imperdível. Chegue cedo e fora de temporada, pois a cidade aceita somente um número limite de visitantes por dia. Para comer bem e barato por aqui, sugiro a barraquinha em frente à doca pública, que vende frango assado e cachorro quente.
Quase 70 fotos dessa jóia de cidade podem ser vistas aqui:
http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157623437104628/ Para terminar o dia jantei no restaurante do hotel onde estava hospedado, o Gasthof Schorn na cidade de St. Leonhard. Assim como o hotel (mais detalhes nas próximas entradas no meu blog), o restaurante é tranquilo, limpo e acochegante. O preço das refeições é justo, algo como US $ 10 por prato (Europa, my friend...) Minha refeição seguiu a tradição de alguns austríacos de comer a sobremesa como prato principal. Escolhi o prato típico Palatschinken, uma panqueca de massa fina (como um crepe) recheada com sorvete de creme e com cobertura de chocolate. Existem versões dessa "panqueca" enchida com geléia de frutas, creme de chocolate, queijo, carne desfiada ou vegetais cozidos, para almoço ou jantar, mas nunca no café-da-manhã.
No dia seguinte segui para outra grande site remoto: Vorderer Gosausee, o lago da cidade de Gosau. Prometo não fazer piada de duplo sentido. Minha esposa confessou-me que detesta. Gosau tem como destaque a maior concentração de Luteranos da Áustria e a sua reputação de disputado point para prática de esqui na neve. Como passeava por lá em Abril, não só explorei o lago - que fica a 8 km da cidade - sozinho, como a paisagem se apresentava como uma mescla de neve e Primavera, ideal para fotografia (tipo cartão postal mesmo). Sério, as montanhas Dachstein Massif (2,500 metros de altitude) que circundam o lago em zigue-zague são um assombro e intimidam pelo tamanho. Nessa época o lago não é apropriado para passeios ou banho, devido ao risco inerente às camadas de gelo fino por sobre a superfície. Assim como experimentei em Vorderer Langbathsee, a sensação de solidão e insignificância diante de um cenário tão grandioso já valem a parada.
Peguei estrada uma vez mais em direção à cidade de Bad Aussee, o centro geográfico da Áustria. Pitoresca mesmo sem a proximidade de um lago, aqui decidi estacionar o carro no centro e exporar o vilarejo à pé. Além das características típicas de uma cidade da região de Salzkammergut que citei aqui (ad nauseum, por sinal), Bad Aussee se destaca pelo belíssimo rio Traun que corta a cidade; por suas igrejas antigas (especialmente a Pfarrkirche Zum Hl. Paul, dedicada à São Paulo e construída no século XV); e pelas confeitarias irresistíveis. Sobre essas últimas, recomendo uma visita a Lewandofsky Temmel, onde você pode encontrar literamente todos os doces que descrevi nesse blog. O único problema é o preço: US $ 5 cada delícia...
Bad Aussee também se revela como o maior centro de design, produção, distribuição e venda de roupas de estilo... tirolês da Áustria! Na verdade a chamada moda Ausser - seja para adultos ou crianças - não é fantasia de carnaval e muito menos roupa barata para turista. São chapéus, lenços, casacos, vestidos, sapatos, meias, trajes e blusas que valem centenas dólares. Existem inclusive marcas de grife como Steinhuber, Lanz, Gössl, Jahn-Markl, Trachtenwelt, Greul e Rastl. Os trajes sob medida, feitos de modo artesanal, podem custar US $ 8,000 para serem entregues em... 2014! As peças mais conhecidas são o dirndl, vestido inspirado nas moças fazendeiras do século XIX e o tracht, igualmente inspirado nas roupas dos antepassados dos austríacos que trabalhavam no campo. A qualidade e a beleza das peças impressiona e você vê muita gente na Áustria (com exceção de Viena) usando essas roupas socialmente: casamentos, missas, festas, espetáculos, restaurantes, saídas à noite... Em Bad Aussee praticamente todos andam assim, usando esses trajes como roupa do dia-a-dia. Em minha opinião as roupas para adultos são originais, sexys e de muito bom gosto e absolutamente nada a ver com a má imagem passada pelo repórter de ficção gay Bruno. Se você não quer investir uma fortuna nesses trajes típicos, sempre resta a opção de comprar uma camiseta muito popular nas gift shop austríacas, com os dizeres: "No Kangaroos in Austria". Bem mais barato...
Próxima parada, a pequenina cidade de Altausee, às margens do lago de nome semelhante, Altausseer. Não sei como não aborrecer o leitor sem dizer - uma vez mais - que o lugar era legal para cacete. Parece que a região de Salzkammergut se transforma a cada mudança de cidade, apesar dos ingredientes serem basicamente os mesmos: lago, montanha, florestas (tipicamente de pinheiros) e construções de arquitetura austríaca. O lugar é tão bonito - mesmo para os padrões da região - que muitos nazistas famosos decidiram morar aqui, como o famigerado SS Adolf Eichmann, o maior "arquiteto" do Holocasto. Os habitantes locais mais velhos tiveram que passar do orgulho de ter gente tão importante vivendo entre eles nos anos 30 e 40, para a dor e o constrangimento décadas depois pelo mesmo motivo. O destaque turístico desse lago vai para a impossibilidade de circundá-lo com um veículo motorizado: ou você parte para hiking com um bom calçado ou monta em uma bicicleta. Eu já estava estourado de tão cansado e, por isso, limitei-me a uma caminhada curta. Na sequência, caí na estrada uma vez mais e segui para o lago vizinho de águas cor de esmeralda - Grundlsee - que banha uma cidadezinha de 1,300 pessoas. O nazista Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, morou aqui por muitos anos também.
Mas a grande atração de Grundlsee não se encontra ali no seu próprio quintal, mas em um tesouro "escondido", que só se alcança depois de uma caminhada de 15 minutos por dentro da floresta, em uma trilha selvagem. O prêmio chama-se Toplitzsee, o famoso lago "nazista" que, reza a lenda urbana, abriga em suas profundezas caixas e caixas de ouro do Terceiro Reich, supostamente escondidas ali um pouco antes do final da Segund Grande Guerra. Aparentemente os Nazis também usavam o lago para testes militares e para esconder barras do metal amarelo. Muitos caçadores de recompensa acabaram pagando com a vida nas suas loucas tentativas de explorar as peculiares águas escuras e frias do lago: além da profundidade incomum (108 metros no total), não há oxigênio depois da marca de 20 metros, devido a alta salinidade. As autoridades intervieram e hoje o mergulho autônomo é proibido. Pouco ouro de verdade foi encontrado, mas diversos artefatos alemãs, incluindo munição, armas, explosivos, torpedos e até dinheiro falso (libras esterlinas, projetadas para enfraquecer a economia inglesa) foram encontrados aqui. Porém o dono do único restaurante do lago me disse que embora "oficialmente" não exista nada, "coisas valiosas" foram removidas na calada da noite ao longo de todos esses anos pelo governo... Talvez seja papo para turista. Ou não... [censored], deveria ter convidado o Mulder e a Scully para vir comigo!
É isso.
Veja aqui as 325 fotos - imperdíveis e em alta resolução - dessa belíssima região do planeta Terra. Não necessita fazer nada, basta clicar no link abaixo:
http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157623381493269/Para melhor visualizá-las, sugiro que você clique no botão Slide Show. Não esqueça de incluir a legenda durante a exibição dos slides