Artigo com fotos: http://moncores.spaces.live.com/

Somente fotos:
Vienna - http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622979418346/
Palácio Belvedere -http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622816933487/
Teatro de Ópera de Viena: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622820358927/
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Palácio Schönbrunn: http://www.flickr.com/photos/moncores/sets/72157622819405871/

Tendo em mente o arranjo que fiz com minha esposa para conseguir viajar para a Áustria - nada de gastar muito - e que iria passear mais do que "curtir" as amenidades de um hotel, estabeleci um critério básico enquanto estive na Áustria: somente hotéis sem frescuras (só para descansar à noite), muito baratos, limpos e com café-da-manhã incluído. Em Viena eu elegi o Hotel Pension Bosch, uma pensão administrada por uma velhinha, o qual recomendo a todos (não a velha, o hotel). O hotel-pensão, categoria bed and breakfast, fica próximo (quatro quadras) das principais atrações turísticas da cidade. Por 35 Euros por dia você pode ter um quarto pequeno com cama de solteiro e banheiro privativo, além de um delicioso café-da-manhã estilo buffet, muitíssimo parecido com aqueles servidos em hotéis em Curitiba: café, suco, chá, pãozinho d'água, frios, geléia, bolos e manteiga. A grande curiosidade acerca do quarto era a privada do banheiro – um standard em toda a Áustria – que tinha uma espécie de ressalto antes do buraco de drenagem. Não sei se os austríacos gostam de conferir sua obra de arte - seu totem - depois de libertar Nelson Mandela, ou se meramente trata-se de um dispositivo para evitar o efeito “splash” da água fria e suja nas nádegas. O fato é que eu não consegui parar de rir quando vi o bagulho pela primeira vez. Deslizar um moreno nunca foi tão divertido!

Por que comecei por Viena? Ela foi a capital do Holy Roman Empire por oito séculos e do Império Austríaco por mais de um século. Também foco cultural e econômico da Europa Central, posto avançado da civilização ocidental antiga às bordas do Império Otomano, além de casa da poderosa dinastia Habsburg por gerações. Precisa falar mais alguma coisa? Para os amantes da História, Viena é uma cidade embrulhada para presente. Além disso é notavelmente segura - uma façanha para uma cidade de 1.7 milhões de habitantes - e de uma limpeza que beira a assepsia. Dezenas de museus, jardins de flores por toda a parte, obras arquitetônicas ímpares, igrejas saídas de um sonho, inúmeras atrações turísticas, centenas de cafés, grandes eventos culturais de reputação mundial - de concertos e óperas a festivais de música eletrônica, tudo isso constitui Viena. Last, but not least, a cidade foi palco de boa parte dos filmes clássicos Amadeus (sobre a vida de Mozart) e o ultra romântico Before Sunrise. Para explorar a cidade adequadamente calculo uma estada de no mínimo 5 dias.

Passear pela cidade é muito fácil, graças ao sistema de transporte coletivo onipresente, eficiente e barato (e, segundo soube, pesadamente subsidiado pelo governo)! Você pode escolher entre baratos bondes, metrô, ônibus ou aluguel de bicicletas. Bondes. metrô e ônibus circulam com precisão, bem... austríaca! Acho que é o único lugar que visitei no mundo no qual alguns minutinhos de atrasos são anunciados (nos dispositivos digitais que existem em cada ponto) acompanhados de um pedido de desculpas! Alias só alguém muito ignorante se perde na cidade, tamanha a quantidade de informação e mapas bilíngües disponíveis em cada ponto. Você compra os bilhetes em quiosques automáticos e só tem que passar pelo leitor de código de barras dentro do veículo. Não existe trocador, já que tudo é baseado na confiança. Confesso que – chuif... – algumas vezes – gulp! – andei em bondes sem pagar. De fato foram várias vezes. Em múltiplos dias. Com algum remorso. Maldita Lei do Gerson em meu DNA...




Outro grande meio de transporte muito usual e democrático na Austria é a bicicleta. Por exemplo, em uma cidade de milhões de habitantes como Viena, elas estão por toda a parte e dividem numa boa o espaço com o trânsito regular de veículos da cidade. Famílias inteiras andando nos corredores de asfalto que correm ao lado das ruas e dos trilhos dos bondes. Bicicletas com assentos para bebês e cestinhas de compras adaptados são muito comuns. Até os sinais de trânsito tem um sinalizador especial para ciclistas. As pessoas deixam suas bikes paradas em lugares específicos - estacionamentos para bicicletas - muitas vezes sem cadeado. Existem estacionamentos como esse até dentro das estações de trem e metrô! Como turista, você pode alugar uma bicicleta em pontos dedicados espalhados pela cidade (assim como em Barcelona), somente com algumas moedas de Euros, para mais tarde devolvê-la em outro ponto da cidade. Se não for de bike, outras alternativas são patins, segways alugados ou, minha predileta: à pé. Afinal, Viena é uma cidade muito compacta e a maioria dos lugares para se visitar ficam contidos dentro de uma área muito pequena.




Outra forma de conhecer um pouco de Vienna é pagando um passeio de carruagem. Se você tiver bala na agulha (pode custar até setenta Euros!) e for um romântico incurável, poderá curtir o caminho mais tradicional dentre todos, equivalente a navegar em uma gôndola em Veneza ou em uma biga de gladiador em Roma (dá-lhe clichezão!): circular a cidade na legendária Ringstrasse, um anel feito de boulevards (avenidas cheia de árvores) que abraçam o centro histórico da cidade. Durante o passeio, um desfile de incontáveis obras gigantescas, detalhadas e meticulosamente limpas, todas de inspiração neo-gótica (de raízes medievais), renascentistas e barrocas, tudo construído a partir da segunda metade do século XIX. A UNESCO considera a Ringstrasse e o centro interior desse círculo patrimônios da humanidade. Encare esse passeio como uma aula de arquitetura e história, só que ao vivo e ao ar livre. Se não quiser pagar a carruagem, dá para curtir de bonde (tram number 1), bem baratinho, mas sem qualquer glamour...



Eu preferi ler esse livro de história que é Viena com os pés. Cara como eu andei... Mas valeu totamente à pena a coleção de calos conquistada. Em um país tão moderno e avançado em termos sociais e econômicos, Viena representa o supra-sumo, o padrão absoluto em termos de qualidade de vida. Eu moraria lá fácil, fácil. Ano após ano, Viena se encontra entre as quatro melhores cidades do mundo (ao lado de Genebra, Zurique e Vancouver), de acordo com o ranking da prestigiosa revista “The Economist”. O que ela oferece em termos de cultura e lazer para seus habitantes está além de qualquer descrição. Levou apenas alguns poucos dias para me apaixonar. Muitos europeus consideram os vienenses arrogantes, narcisistas e pavões. Dá para culpá-los? Hell no! Deixe-me guiá-lo, caro leitor, pelas ruas dessa maravilhosa cidade que em nenhum momento deixa você esquecer o passado.



Nosso primeiro ponto de parada, o prédio do Parlamento da Áustria. Eele foi construído em estilo neo-clássico, como um templo greco-romano, provavelmente por causa da representação simbólica da democracia. A construção levou dez anos (1874-84), antes de debutar como a legislatura do Império Austro-Húngaro. A função permaneceu até a proclamação da República, logo após a queda da dinastia Habsburg em 1918, quando o parlamento começou a atuar como poder independente. Durante a Segunda Guerra Mundial metade da obra foi destruída e a reconstrução meticulosa durou até 1956. O parlamento austríaco - ramo legislativo do Governo - se compõe de duas casas compostas por representantes das nove províncias do pais. O Österreichisches Parlament destaca-se como a construção mais imponente da Ringstrasse, com estátuas em mármore de preciosa beleza e riqueza de detalhes (marca registrada de tudo em Viena). Na base da escadaria figuras humanas que representam os mais importantes rios da Áustria, circundando a deusa grega da sabedoria Palas-Athena, filha de Zeus mas sem uma mãe, já que saiu direto da cabeça do rei dos deuses. Pequenas estátuas de cupidos cavalgando golfinhos complementam a decoração. Carroças (quadrigas) guiadas pela deusa grega da vitória Nike, todas em bronze e em alto relevo, decoram a parte superior do "templo".




Depois de agendar pela Internet um horário para uma visita guiada (não há opção para língua portuguesa) e pagar 6.50 euros de entrada, conheci a Wiener Staatsoper, o famoso Teatro de Ópera de Viena, uma das jóias da Ringstrasse. Por fora o prédio de arquitetura neo-renacentista impressiona por sua imponência e beleza - como a maioria das obras arquitetônicas da cidade. Dizem os especialistas que a obra orginal, construída entre 1861-69 e destruída pelo bombardeio aliado durante a 2a Guerra Mundial, desbancava de longe a construção atual. Do original sobrou mesmo duas partes. A frente do teatro, que exibe embaixo de arcos de pedra cinco maravilhosas estátuas em bronze simbolizando heroísmo, drama, amor, fantasia e humor. E, logo na entrada, a soberba escadaria em mármore, toda ornamentada com estátuas que representam as setes artes liberais (como Música e Dança, por exemplo). A reconstrução do restante do prédio terminou em 1955. Deve ter sido mesmo o bicho, porque passear pelo interior do teatro "atual" me deu cãimbra no queixo, tamanho o tempo que fiquei de boca aberta. Prepare-se para gastar uma duas horas só conhecendo a Staatsoper...




As três fotos inferiores: Pintura homenageando a ópera cômica; fonte dedicada à lengendária sereia Lorelei, suportada pelas estátuas que representam a Vingança, o Amor e o Luto; A sala de chá do rei Franz Joseph, que ele e sua comitiva usavam durante os intervalos das apresentações.

Um dos teatros mais disputados do mundo, o Staatsoper permanece ocupado quase que todo o ano, produzindo em média 55 óperas e 200 performances, empregando mais de 1,000 pessoas e gastando aproximadamente 100 milhões de Euros nas produções (50% desse dinheiro, bancado pelo governo). Bate exatamente com a política de incentivo a cultura no Brasil... No auditório cabem mais de 2,000 convidados e todos os assentos têm um visor digital para a passagem de mensagens, letras de músicas, programa e legendas. Cantores de ópera são idolatrados como pop stars e só perdem em popularidade para esquiadores consagrados. Nesse palco, atuaram grandes maestros da legendária e popularíssima Orquestra Filarmônica de Viena, como os austríacos Gustav Mahler e Herbert von Karajan. Este último, membro do partido Nazista e bastante ativo durante a 2a Guerra Mundial, oferecendo performances para os oficiais de Hitler. Hmmm. Perfeccionista insano, disparou uma vez uma de minhas frases favoritas: "Those who have achieved all their aims probably set them too low".

Uma vez por ano, acontece no Staatsoper um dos eventos mas internacionalmente badalados da Áustria: o Vienna Opera Ball. Caro, opulento, elitista, ultra-conservador e com cobertura extensiva da imprensa européia, o baile de debutantes (em média 100 casais) atrai gente podre de rica, homens de negócio e políticos (incluindo o presidente da Austria) de todo o mundo. Já mencionei que pobre ou gentalha não pode entrar? Uma festa tão glamurosa em Viena só poderia ter uma trilha sonora: a valsa. Um hit em qualquer festa de debutante que se preza no Brasil, a Valsa Vienense - dança nacional da Áustria por séculos – goza de imensa popularidade no mundo graças às composições de Johann Strauss, especialmente o clássico absoluto Danúbio Azul. Ele compôs mais de 500 valsas e é tão idolatrado em Viena, como Mozart em Salzburg, sua cidade natal. As valsas de Strauss eram consideradas a “Marseillaise do coração”, tamanha a mensagem liberal de seus arranjos. Se você não sabe, os franceses usaram a Marseillaise como símbolo de liberdade e união contra os exércitos invasores de países monarquistas, logo após iniciada a Revolução Francesa (1789). Hoje é o hino da França. Retornando à valsa, ela derivou-se de algumas danças folclóricas alemãs, por volta de 1770. Contudo até o final do século XVIII, a valsa era considerada uma dança demasiadamente indecente para meninas solteiras, sendo reservada para mulheres casadas, mesmo assim do povão. Gradativamente, saiu dos guetos para ganhar os grandes salões de palácios, onde virou mania na época do Congresso de Viena, em 1814, onde se tornou uma dança socialmente respeitável. Veja aqui abaixo um vídeo do Wiener Opernball.


Não dá para falar de Viena sem mencionar seus famosos Cafés. A reputação internacional deles, tanto por sua importância social (ponto de encontro de intelectuais), tanto pela qualidade da comida ofertada, vem de muito longe. Segundo reza a lenda, tudo começou em 1683, após a Batalha de Viena, quando os turcos bateram em retirada e deixaram para trás sacos e sacos de café. A Áustria apresentou a bebida para a Europa e pequenos estabelecimentos foram criados para apreciar a bebida junto com um pedaço de torta, uns biscoitinhos ou outras comidinhas leves. Rapidamente tornou-se um hábito sentar-se à mesa de um café vienense com amigos para discutir negócios, política, religião, cultura e outros assuntos polêmicos, ou mesmo para um encontro romântico com o objeto do seu afeto. A maioria dos estabelecimentos proporciona até música ambiente de um piano. Muitos escritores austríacos famosos escreviam suas obras imersos na atmosfera proporcionada pelos cafés. Durante meus passeios pela cidade fiquei impressionado com a imensa quantidade deles, espalhados por toda a cidade e sempre cheios, desde muito cedo pela manhã. Alguns destes Cafés estão entre os mas velhos da Europa. Nos que entrei para experimentar alguma coisa, nunca houve pressão para que eu deixasse o estabelecimento. Porém os garçons e garçonetes, vestidos e agindo como lordes, olham para você - turistão - com um certo desprezo. Para a população local, tomar café - sozinho acompanhado - tem a mesma força da tradição do chá da tarde inglês. O café em si pode ser servido em uma infinidade de misturas a base de leite, água (!?), bebidas alcoólicas, chantilly, canela e baunilha. Vários nomes “sofisticados” utilizados pelas coffee houses mundo afora, nasceram em Viena, tais como mokka e melange. Acompanhando seu café, sempre um copo de água, uma taça pequena de leite e o jornal do dia, tudo servido em uma bandeja de prata.




Entre todos, escolhi o legendário Cafe Sacher para provar a especialidade culinária mais famosa da Viena: a Sachertorte original (existem várias cópias no país, igualmente saborosas). Trata-se de uma delíciosa torta de chocolate amargo e nozes, recheada com geléia de damasco servida com um pouco de chantilly, inventada por Franz Sacher em 1832. Como é um pouco sequinha, implora um café bem gostoso para acompanhá-la. Sua receita é considerada segredo de Estado, dado o valor atual da marca Sacher. A torta Sacher é exportada para todo o mundo. O estabelecimento em si pode ser considerado uma atração, pois fica localizado dentro de um prédio histórico, o cinco-estrelas Hotel Sacher, fundado em 1876 pelo Sr. Eduard Sacher. Quando ele morreu, assumiu a super confeiteira imperial da corte Habsburg e esposa, Anna Sarcher. Sob a gerência dela o hotel transformou-se em um dos melhores do século XIX em todo o mundo! O lugar também tinha a reputação de hospedar nobres e milionários e suas amantes para encontros furtivos... O Cafe Sacher preserva até hoje a atmosfera da Viena do século passado, incluindo uma coleção de arte do século XIX em meio às paredes. A disputa para entrar no Café é grande e a fila de espera também. Não foi barato: sentado do lado de fora, custou-me oito Euros para saborear esse doce dos deuses com uma xícara de café, porém não deiza de ser uma experiência turística obrigatória.




Perto dali encontra-se aquela que representa a alma da cidade e uma de suas maiores atrações turísticas: Stephansdom, a igreja de arquitetura romanesca de 800 anos de idade (!!) que mantém os restos mortais de vários membros da poderosa casa Habsburg, como os do imperador Friedrich III. A Catedral foi restaurada e ampliada ao longo de sua vida, mas destacadamente nos séculos XIV e XV, mas ainda mantém vários componentes originais do século XIII, como o altar e a parte frontal contendo duas torres. Não dá para ignorar esse colosso de 136 metros de altura na paisagem Vienense, não importa onde você se encontre na cidade. Quase um quarto de milhão de pequenos azulejos (formando figuras e diagramas) cobrem o alto telhado da igreja. Uma curiosidade: pelas fotos você vai notar que ela está capenga, pois falta a torre Norte. De acordo com a lenda, o mestre de obras encarregado, Hans Puchsbaum, fez um pacto com o Demônio para ajudá-lo a construir rápido a maravilhosa edificação, mas rompeu o acordo ao pronunciar palavras sagradas durante o trabalho. Belzebu então fez com que ele se atirasse da torre para a morte certa. Como resultado, a torre Norte nunca foi concluída. A estátua mais famosa do exterior da catedral é a de Joahanes Capistrano, triunfante e pisando um invasor turco. Na verdade ele foi um padre que corajosamente pregava contra a invasão turca em 1451 e, para a sorte dele, os turcos perderam.



O interior da igreja mãe da arquediocese de Viena é tão espetacular quanto seu exterior. Existe uma coleção de arte gótica de diferentes séculos, espalhadas dentro da imensa nave, com destaque para: as diversas esculturas de santos; o altar principal, elaborado em 1647 para ilustrar o martírio de Saint Stephen; um púlpito todo esculpido em madeira com figuras ilustres do catolicismo da época; a tumba do imperador Friedrich III; e o Wiener Neustädter Altar, construído em 1447, mostrando cenas da vida de Cristo e sua mãe em alto relevo na madeira. Outras atrações do interior da igreja incluem: a visita à torre (boa visão panorâmica da cidade); o sino (Pummerin Bell) da torre - o maior dos 23 existentes, fundido a partir do material dos canhões dos invasores turcos de 1451; e as catacumbas e os seus ossos de sempre. Embora seja permitido, tirar fotos do interior não deixa de ser uma aventura, dada a muvuca de gente que enche a igreja durante todos os dias (turistas e atendentes das missas celebradas) e quantidade de fumaça de incenso onipresente.





Para os apreciadores da beleza artística e do valor cultural e histórico das igrejas, Viena é um prato cheio por dois motivos. Graças ao êxito do movimento de contra-reforma nos países de língua Alemã, a Igreja Católica não só ratificou seu domínio no império Áustro-Húngaro, como ampliou sua influência através da construção de inúmeras obras suntuosas, com pleno suporte financeira dos poderosos Habsburgs. A segunda razão para se encantar com as igrejas de Viena envolve uma característica austríaca: perfeccionismo. Todos os países que visitei até hoje com grande acervo de igrejas, mantém a maioria delas com uma aparência de "velha" e "gasta". Acredito eu para "valorizar" a História da edificação. Bullshit. Muito mas legal entrar em uma igreja impecavelmente limpa, cuidada e, mas importante, com todas as peças e estrutura impecavelmente restauradas. As igrejas vienenses são tão perfeitas, que o visitante tem a impressão de que ela foi recém-inaugurada, porém com o bônus de que a maioria foi construída nos séculos XVII e XVIII.



A algumas quadras da catedral de Stephansdom encontram-se várias delas: Deutschordenskirche (século XII), Dominikanerkirche (1634), Franziskanerkirche (1603), Annakirche (1634), Kirche am Hof (século XIV), Peterskirche (século XII), Maria am Gestade (1158) e Ruprechtskirche (século XII). Das que tive tempo de visitar, destaco a igreja barroca Jesuitenkirche, concluída em 1705 das mãos de um arquiteto italiano para a odem jesuíta. Seu interior, opulento, colorido e todo trabalhado, revela a grana que rolou para construir essa homenagem à ascenção de Maria e, naturalmente, para espalhar a mensagem de poder dos Jesuítas como força dominante da época. Outras atrações notáveis da igreja: o domo construído de acordo com a técnica trompe l'oeil (que ilude os olhos para dar um efeito 3D); o órgão; os pilares de mármore em formato espiral; todas as pinturas e estátuas sacras; e as catacumbas.




Andar como um louco em Viena dá uma fome do cão. Nada melhor do que relaxar em um lugar com comida típica boa e barata: um Würstelstand, uma das inúmeras barraquinhas espalhadas pela cidade que vende linguiças, salsichões e cachorro-quente. Malandro, que delícia... Existe tanta variedade de gostusuras fritas ou grelhadas, que se você não faz uma pesquisa prévia, ficará indeciso por um bom tempo na hora de pedir. As mais famosas: frankfurter, salsicha defumada de carne de porco e de gado, consumidas desde a Idade Média; bratwurst, linguiça composta de carne de vitela, porco ou gado e "inventada" por volta do ano 1400 na Alemanha; currywurst; käsekrainer, invenção 100% austríaca que vem com pedaços de queijo em seu interior; e a apimentada debreziner. As bichinhas grelhadas ou fritas (com ou sem mini baguete para fazer hot-dog) geralmente vêm acompanhadas de sauerkraut e mostarda. Alíás, uma das primeiras perguntas que o atendente faz durante o seu pedido é "adocicada (süss) ou apimentada (scharf)?", por causa da mostarda. Para acompanhar tudo isso, os estandes vendem garrafinhas de vinho de mesa, refrigerantes e cervejas alemãs e austríacas geladas. Instituição democrática, würstelstands atende todo tipo de gente na rua e é muito engraçado comer ao lado de um cara de terno e uma garota cheia de piercings e tatuagens.




Um dos complexos arquitetônicos mais fascinantes de Viena, o gigantesco e belíssimo Palácio de Hofburg, abriga um sem número de atrações imperdíveis dentro de seus limites, incluindo biblioteca, residências imperiais, capela, igreja, escola de equitação e sala do tesouro. Os escritórios da presidência da Áustria também ficam por aqui. O complexo nasceu a partir de um pequeno forte mais tarde transformado em palácio e, à medida que o tempo passava, expandido pelos Habsburgs até 1918, quando estes perderam o poder. Os séculos de presença da corte Habsburg causou uma influência profunda em toda a vizinhança, já que todos sempre queriam ficar perto da corte imperial. Por isso, até hoje você encontra as melhores coffee houses, as mais sofisticadas lojas e galerias de arte da cidade aqui. Além da Ringstrasse, essa também é uma excelente área para investir em um passeio de carruagem. Vários museus encontram-se dentro do palácio e, infelizmente, não tive tempo de visitar alguns deles como o Ephesos Museum, dedicado às ruínas de uma importante cidade greco-romana, o Sammlung alter Musikinstrumente, uma grande coleção de instrumentos musicais antigos, a Schatzkammer ou sala do tesouro real, e o Hofjagd- und Rüstkammer, uma coleção de armas e armaduras medievais.




Os dois habitantes mais famosos desse palácio de verão foram os Habsburgs Franz Joseph e sua esposa, a Elisabeth of Bavaria. Franz Joseph governou o Império Austro-Húngaro de 1848 a 1916. Graças a sua formação e experiência miilitar, comandou o país com mão de ferro, um dos últimos monarcas absolutistas da Europa que representavam o Antigo Regime. O bicho era tão ruim que em 1853 escapou com vida de um atentado a faca, onde ficou bastante ferido (pescoço) e perdeu muito sangue. Sob sua batuta, a Áustria também experimentou um boom econômico e cultural, atraindo gente rica e talentos de toda parte do império para Viena, assim como comerciantes de todo o mundo. Um de seus legados mais famosos foi a construção da Ringstrasse em Viena. Em 1898 assistiu sua esposa ser assassinada - ironicamente - por uma faca. Desde então tornou-se uma criatura triste e nunca mais se recuperou do baque. Até o dia da sua morte, aos 86 anos, vivia dizendo que nunca pode dizer a ela como a amava. Dois anos depois, o império Austro-Húngaro chegava ao fim, junto com a Primeira Guerra Mundial, e a era dos Habsburgs se encerrava. Detalhes mais adiante...

Para quem curte como eu o dia a dia de uma família real, nada melhor que visitar o coração do Palácio de Hofburg, o Kaiserappartements, conjunto de aposentos da antiga família real austríaca, e também um museu dedicado a Elisabeth of Bavaria famosa imperatriz da Austria e rainha da Hungria. Além de esposa de Franz Joseph, Elisabeth também era sua prima mais nova. Não fique horrorizado. Como você acha que os Habsburgs se mantiveram no poder por séculos? Sisi, como era chamada carinhosamente por todos desde criança, tornou-se um ícone dentro do Império Austro-Húngaro por súditos que a idolatravam e, mas tarde, por toda a Europa. Porque Sisi tornou-se uma "pop star"? Por sua beleza clássica impressionante, seu bom gosto consistente e invejado ao vestir-se, sua habilidade como amazona, sua fluência em múltiplos idiomas (incluindo grego), pelas poesias que escreveu, por sua não conformidade à esnobe etiqueta da corte Habsburg, sua queda pela causa dos rebeldes húngaros, sua coleção de amantes, sua vitória contra a tuberculose no auge de sua juventude, além de sua trágica morte aos 60 anos, vítima da faca de um assassino anarquista que odiava a realeza. Parece um roteiro ponto para a telona, não? E foi exatamante isso que aconteceu: vários filmes, musicais e peças de teatro produzidos ao longo dos anos. Três filmes produzidos nos anos 50, com a atriz adolescente Romy Schneider, tornaram-se sucessos globais, vistos e revistos até hoje. Eu cheguei a ver um deles na Sessão da Tarde. Deus, como sou velho... Os filmes eram tão cheios de sacarina - estilo conto de fadas, que até hoje o adjetivo sissi nos Estados Unidos qualifica um cara afeminado, covarde ou imaturo.




O setor de Hofburg que abriga um dos mais prestigiados museus de arte do mundo chama-se Albertina. Conta com uma coleção de um milhão de gravuras, 65,000 aquarelas e 70,000 fotografias, todas obras de valor histórico e cultural inestimáveis. Rascunhos de vários artistas famosos encontram-se armazenados aqui: Dürer, Michelangelo, Rubens, Chagall, Degas, Cezanne, Da Vinci, Picasso, Rembrandt, Renoir, Miró, entre outros. Em 1945, assim como outros prédios históricos de Viena, o Albertina sofreu tanto com os bombardeios aliados, que a reforma durou de 1998 a 2003. Outra coisa legal em visitar o lugar é a exploração dos State Rooms dos Habsburgs, abertos para visitação pública muito recentemente, depois de quase 200 anos fechados. Permita-se pelo menos umas duas horas para visitar o museu.




Em minha opinião a mais impressionante seção do Palácio de Hofburg é o Prunksaal der Osterreichischen Nationalbibliothek, o salão principal (State Hall) da biblioteca imperial austríaca, hoje um museu. Construída em 1723, para mim representa um daqueles lugares que jamais esquecerei: o Prunksaal, que significa "splendor hall" ou salão do esplendor. Mais de 200 mil livros impressos entre 1723 e 1726 são guardados aqui. Estantes de livros em madeira trabalhada erguem-se gigantescas e imponentes entre toda a sorte de um maravilhoso e intenso conjunto de obras de artes decorativas: estátuas e colunas em mármore, escadas em espiral, mapas, pinturas barrocas e globos. Não ficaria triste se o Paraíso possuísse um cantinho desses. Os afrescos no teto - representando metáforas de guerra e paz - têm cores tão vivas, que parecem ter sido pintados ontem. Você fica praticamente sem respirar desde o momento em que pisa no chão de mármore, percorre os 154 metros (ida e volta), até o momento de partir. Alías, será um desafio sair dessa atração, tamanho a capacidade dessa bibloteca de hipnotizar o visitante incauto. Tudo isso por apenas 7 Euros...




O complexo Hofburg é tão grande, que existe espaço para estábulos e uma escola de equitação espanhola (!?) de classe mundial, a Spanische Hofreitschule, fundada em 1572 pelo imperador Karl VI, ele mesmo um excepcional cavaleiro. Os Habsburgs utilizavam o lugar não só para procriar cavalos de raça de modo controlado, como para elevar o ato de andar a cavalo a uma forma de arte, através de adestramento. Aqui também é a morada dos legendários animais da raça Lipizzaner, uma mescla de genes árabes, espanhóis e norte-africanos: o melhor do melhor. Vigorosos e, ainda assim, cheios de graça, começam a ser treinados aos três anos de idade. Sua especialidade são saltos e manobras acrobáticas. Durante os séculos de existência da escola, somente homens treinaram os cavalos. Isso mudou somente muito recentemente, em 2008, quando duas garotas - um inglesa e uma austríaca - foram admitidas na escola depois de 436 anos de história sem instrutores do sexo femino. A Spanische Hofreitschule funciona até hoje e, se você tiver bala na agulha, pode pagar entre 25 e 115 Euros para assistir um show de 80 minutos nas galerias que circundam uma imensa arena. O espetáculo envolve cavaleiros e seus cavalos ultra bem treinados (infelizmente não são permitidas fotos ou filmagens durante o show). Mas faça a reserva e compre os tíquetes pelo website com meses de antecedência, já que os lugares são limitados e o show, por ser muito bom, é muito concorrido. Tem turista que vem para Viena só por causa desse show...




Além de abrigar o setor mais recente a fazer parte do complexo Hofburg, Neue Burg (adicionado a partir de 1881 até 1913) hospeda várias coleções de arte. A mais importante é a do herdeiro direto do trono do império austro-húngaro no fim do século XIX, Arquiduque Franz Ferdinand. Lembra dele? O sujeito não teve uma vida particularmente destacada (exceto por ser um exímio caçador nascido do berço de ouro) para justificar sua inclusão nos livros de História. Porém sua morte o fez. Na época dele, a população da Bosnia & Herzegovina nos Balcãs tinha ódio mortal da ocupação austríaca, especialmente os sérvios que viviam lá e que sonhavam com a independência e anexação à Sérvia. Uma organização terrorista, conhecida como “Mão Negra” foi criada em 1911 pregando a separação, ainda que por violência. No verão de 1914, o arquiduque queria viajar para a Bosnia com a finalidade de trazer a paz para a região e mostrar que faria concessões depois que assumisse o trono. Mas a situação estava tão preta, que o embaixador sérvio em Viena, Ljuba Jovanovic, em 5 de Junho, tentou dar uma “deixa” para o ministro de financas austríaco, Dr. Leon von Bilinski, sobre uma possível tentativa de assassinato: “...algum jovem sérvio pode por uma bala em na arma e atirar...”. Polinsk replicou rindo: “Vamos esperar que nada aconteça...”. E nada foi feito. Ninguém foi avisado. Franz Ferdinand viajou com sua esposa, Sofie, para Saravejo, capital da Bosnia. Durante o passeio de carro pelas ruas da cidade, membros do “Mão Negra” tentaram matar o casal real jogando uma bomba dentro do carro. Ferdinand rebateu-a com as mãos evitando o pior. O arquiduque ainda teve tempo de se recuperar do susto e atender uma recepção em sua homenagem. Mas a tentativa de assassinato causou uma confusão danada e alguém esqueceu de comunicar ao motorista que ele deveria continuar a viagem por uma rota alternativa. Na continuação o carro de sua alteza teve que parar em um ponto do percurso, em frente a uma lanchonete onde um dos conspiradores, um jovem sérvio desiludido com o péssimo desfecho do atentado de poucas horas atrás, comprava um sanduíche. Ele provavelmente mal acreditou na sua “sorte” e calmamente caminhou para o automóvel e matou o casal à queima-roupa, a causa imediata da Primeira Guerra Mundial.




Normalmente o exército austríaco não teria problemas em cuidar dos Sérvios e dar-lhes uma boa lição pelo ocorrido. Contudo, por causa do sistema integrado de alianças existente na Europa da época, uma nação atacando outra desencadearia um efeito cascata, como de fato ocorreu: o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia; a Rússia ao Império Austro-Húngaro; os alemães ficaram automaticamente do lado dos austríacos; os alemães invadiram a neutra Bélgica para alcançar a França; os ingleses decidiram interferir e posar como defensores dos belgas; e... pronto! [censored] no ventilador. Por causa de um diplomata austríaco idiota que não soube ler nas entrelinhas, a Europa mergulhou experimentou quatro anos de uma das maiores tragédias da história da humanidade: onze milhões de pessoas mortas; quatro grandes impérios destruídos; e o fim da civilização ocidental da época. O mais bizarro é que tão logo a Grande Guerra começou, pessoas em Londres, Paris, Viena, Berlim, multidões celebravam nas ruas (!?), cantando seus respectivos hinos. Todos pensavam que seu país era superior a todos os outros (nacionalismo estúpido), que a guerra duraria apenas algumas semanas graças aos avanços tecnológicos da época e que seria “cool” ver em ação todas as novas armas da 2ª Revolução Industrial espalhando o terror. Não esqueça que, graças ao Congresso de Viena, a remota memória coletiva da última grande guerra – contra Napoleão 100 anos antes – evocava somente cavalos, espadas, heroísmo, glória e aventura. Toda uma geração não tinha a mínima idéia do tamanho do problema no qual se metiam. Ironicamente, o obsceno desperdício de vidas humanas em uma guerra que destruiu a civilização européia, começou como um... Big Game.




A última parte do complexo de Hofburg que merece uma menção especial é uma praça. Palco de um momento chave da história européia recente. Em Heldenplatz Hitler anunciou a famigerada Anschluss - a anexação da Áustria à Alemanha para dezena de milhares de vienenses exultantes em 1938, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Você deve se perguntar: como os austríacos, potência européia por tantos séculos, loucamente orgulhosos, concordaram com esse absurdo de ceder sua soberania para outrem? Basicamente por dois motivos. Primeiro, pela esperança de resolver os problemas econômicos. Depois da Primeira Grande Guerra a inflação estava nas alturas e o índice de desemprego também (30% em 1939), impensável depois de séculos de prosperidade e poder. Muito duro no bolso e na auto-estima (já abalada com a recente derrota) do povo. A Áustria parecia sofrer de hidrocefalia: Um cabeção (Viena, com 60 milhões de habitantes) para um corpinho (o resto do país). Além disso, nessa época, Hitler - um austríaco (não sabia disso?) - ainda não era o monstro que viria a se tornar, mas um fantástico gênio salvador-da-pátria que tirou a Alemanha da mesmíssima lama na qual os austríacos se encontravam atolados. Segundo motivo: por causa da herança cultural compartilhada. Por séculos o Holy Roman Empire tinha como máximas estrelas a atual Áustria e a Alemanha (antiga Prússia) e, mesmo depois da dissolução, os dois países volta e meia eram aliados, inclusive companheiros unha e carne na humilhante derrota que se seguiu à Primeira Guerra. Mesmos inimigos, mesmos ódios, mesmo desejo de vingança (para alguns). A Anchluss permitiu aos austríacos fazer parte de um seleto clubinho que tinha a máquina de combate mais letal do planeta, a qual todo o resto do mundo temia. Hitler soube explorar muito bem esses dois pontos - economia e cultura compartilhada - e através de habilidosas maquinações políticas dentro do coração governamental Austríaco e grana por baixo dos panos para o partido Nazista local, conseguiu criar um ambiente favorável para "invadir pacificamente" a Áustria com sua poderosa Wehrmacht (exército alemão). Depois de declarar a Anchluss, realizou um referendo popular. Sem a mídia (devidamente controlada) e opositores austríacos (presos) que alertariam a população sobre esse grande equívoco, com tropas alemães circulando nos pontos de votação, com o impedimento dos judeus de votarem, o resultado oficial deu mais de 99% de aprovação. Historiadores concordam que o resultado não foi manipulado. Bispos da Igreja Católica discursavam para seus fiéis seu apoio e pediam obediência à nova instituição. Com exceção do México (!?) todos os países acataram a anexação na boa. De imediato, judeus começaram a ser publicamente humilhados e por vezes atacados nas ruas de Viena. Dos 180 mil judeus austríacos, 55 % (visionários e afortunados) deixaram o país, incluindo todos os seus bens para trás. Apenas o começo do processo de imersão no poço de [censored] que foi a 2a Guerra Mundial. A mega ação de boas vindas na Heldenplatz, para muitos austríacos contemporâneos, marcou a grande degradação moral da nação.


A Heldenplatz também conta com dois magníficos monumentos de personagens ilustres da Áustria. A primeira estátua gigantesca localizada na praça homenageia o príncipe Eugen Von Savoyen, nascido francês mas herói austríaco da guerra contra os invasores turcos (1683–1699). Rejeitado pelo todo poderoso rei Louis XIV da França (o "figura" autor da frase "O Estado sou Eu", também chamado Rei-Sol) para comandar divisões do exército francês, decidiu servir os Habsburgs. Dedicou-se impecavelmente seis décadas de sua vida a três imperadores e ao povo austríaco, com bravura rivalizada por poucos. Sua fama foi sedimentada na épica Batalha de Zenta em setembro de 1697. Comandando um exército inferior em quantidade e em qualidade técnica, utilizou-se de audácia e astúcia para surpreeender o inimigo enquanto este cruzava um rio. Decidindo atacar mesmo contra as ordens expressas de seus superiores em Viena, com o custo de 500 vidas de soldados austríacos matou mais de 30,000 (você leu bem) inimigos após cercá-los completamente. 10,000 deles morreram afogados no rio, tamanho o terror causado pelo massacre em andamento. Essa vitória garantiu a derrota otomana no coração da civilização ocidental e inaugurou uma nova era de domínio dos Habsburgs na Europa Central. Detalhe: Zenta foi a primeira grande batalha da vida dele (tinha 34 anos quando venceu)... Sem nunca temer expor-se ao perigo das linhas de frente, liderava e inspirava seus homens em batalha a dar o melhor de si, mesmo contra um inimigo "superior". Graças a ele, durante a Guerra de Sucessão Espanhola (1701-1714), a Áustria e seus aliados - Inglaterra e Holanda - frustraram o plano maquiavélico e megalomaníaco de Louis XIV (o mesmo idiota que o dispensou anos atrás) de unir os reinos da França e Espanha em uma única super-poderosa potência capaz de dominar o mundo (da época). Quando descobriu que ele tinha cruzado os Alpes (como Hanibal, durante as Guerras Púnicas) para supreender o até então imbatível exército francês, o imperador Louis enviou uma mensagem ao seu comandante: "Cuidado: esse homem não se atém as regras da guerra convencional..." Talvez fosse um filho da [censored] sortudo, mas o fato é que pouquíssimas vezes foi derrotado e, nesses casos, sempre por conta da incompetência de seus aliados. A ponto de ser considerado por muitos (incluindo Napoleão Bonaparte) como um dos melhores estrategistas militares da história da Europa, seu grande diferencial não tinha a ver com inovação, mas com disciplina, lealdade, honestidade e sua capacidade de fazer uma estrutura inadequada funcionar como um relógio. Certamente seria um grande CEO nos dias de hoje. O grande mistério sobre sua vida é saber como conseguiu tudo isso sendo gay naquela época ultra conservadora.



A outra estátua da Heldenplatz homenageia o arquiduque Karl (Erzherzog Karl von Österreich), herói austríaco durante as Guerras Napoleônicas e o mais formidável inimigo de Bonaparte. Se você não desperdiçou a grana dos seus pais dormindo durante as aulas de história do cursinho, sabe que Napoleão veio "lá de baixo", tornou-se um dos heróis da Revolução Francesa - uma resposta à opressão das classes mais baixas da sociedade francesa pela mornarquia. Em seguida, "expandiu" os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade para os países fronteiriços com ajuda de seus exércitos para, finalmente, sacanear todo mundo e auto declarar-se Imperador. O comandante Karl já havia ajudado os Habsburgs a defender seus pescoços (afinal, toda monarca europeu estava com o cú na mão depois da degola de Louis XVI em 1789) durante as batalhas da contra-revolução, mas foi contra Napoleão que ele estabeleceu sua reputação de competência e excelência no campo de batalha. O Duque de Wellington ganhou seu lugar na posteridade ao derrotar o imprevisível e genial general corso, mas Karl foi o responsável por todo o trabalho duro que veio antes da vitória final do inglês. O austríaco enfrentou Napoleão diversas vezes em batalha, mais que qualquer outro comandante. Não apenas uma única vez como Wellington. Muitas delas, com poucos recursos contra um dos melhores militares que o mundo já viu. Não fosse por Karl e seus aliados, Napoleão teria feito um estrago muito maior. O sujeito foi um dos dois grandes espinhos no pé do francês. O outro foi o inglês Almirante Nelson. Mas essa história fica para outro dia...



O Palácio de Hofburg também foi palco em 1814-15 de um grande momento histórico mundial: o Congresso de Viena. Napoleão havia sido derrotado e as potências vencedoras – Inglaterra, Russia e Áustria - somada à derrotada França, buscavam arrumar a casa depois da bagunça feita pelo aventureiro e déspota esclarecido de Córsega. Dois imperadores, quatro reis, inúmeros príncipes e habilidosos embaixadores - os grandes nomes do continente enfim - se reuniram naquela que foi a mais importante e magnífica assembléia do século XVIII. Tinha tanto VIP envolvido que se um meteorito acertasse o palácio naqueles meses, a estabilidade da Europa iria para o vinagre. Muitos pensam que o Congresso não passou de uma sessão plenária prolongada de corte-e-recorte do mapa da Europa, reservada somente às grandes potências, onde territórios passavam de mão em mão para troca como cartas de Yu-Gi-Oh nas mãos de moleques de 12 anos. Ledo engano. O redesenho do mapa aconteceu de fato, mas depois de séculos de guerras religiosas, da famosa Revolução Francesa (1789) e dos anos de dominação napoleônica, o que todos queriam mesmo era a paz e a volta aos tempos do Antigo Regime, onde a monarquia reinava absoluta ao lado da Igreja. O famoso status quo “chain of being”. Por isso convidaram também a derrotada França, idéia genial do diplomata austríaco Metternich. Não lograram o segundo objetivo - as revoluções tinha vindo para ficar, mas conseguiram uma paz que durou quase um século, até o início da Primeira Guerra Mundial. O Congresso de Viena acabou tornando-se uma inspiração, primeiro para a Liga das Nações e, mas tarde, para a Nações Unidas. O ato final foi assinado em Junho de 1815, alguns dias depois da segunda e decisiva derrota de Napoleão em Waterloo (durante os procedimentos em Viena ele escapou do exílio na ilha de Elba e tentou retomar o poder).






Depois de tanta história, chegou a hora da bóia. Minha recomendação de restaurante na vizinhança do palácio real é o "buraco" frequentado quase que exclusivamente por locais, chamado Immervoll. Um dos preferidos dos dos vienenses, o Gasthaus Immervoll não parece muito luxuoso, mas cobra muito bem: minha conta saiu por salgados 20 Euros, mais a gorjeta da garçonete - uma loira bem jovem que parecia ter saído da Agência Elite. Já que estava em um restaurante típico austríaco, decidi provar o mais famoso de todos os pratos locais: o Wiener Schnitzel - vitela à milaneza - servido com um pedaço de limão e uma salada fria (!?) de batatas cozidas na manteiga. Muito barulho por nada... (veja as fotos). "Cadê os acompanhamentos?", pensei comigo. Gosto OK. Reza a lenda que o prato foi inventado na Itália e "roubado" pelos Habsburgs (sempre eles) para, mais tarde, ser absorvido pela cultura local. Um aviso: não discuta esse tema (do roubo) com um austríaco ou ele/ela pode se alterar...







Próximo ao complexo do palácio de Hofburg existem duas igrejas que valem uma visita. A primeira, em frente à entrada principal na praça Michaelerplatz, chama-se Michaelerkirche, uma das mais antigas de Viena. A obra Requiem de Mozart foi executada (a parte que estava pronta, já que ele nunca a concluiu) pela primeira vez nessa igreja, em Dezembro de 1791, durante o memorial service do gênio. Construída no século XIII e frequentada por toda a corte dos Habsburg durante séculos, possui arquitetura neoclássica, romanesca e gótica, além da fantástica escultura de Saint Michael derrotando Lúcifer, logo na entrada. O interior, cheio de afrescos do século XIV e contendo um órgão de madeira trabalhada de 1714, aparenta imerso em fumaça de incenso 24 horas por dia, tamanha a quantidade de missas diárias. Curiosamente, a igreja parece o submarino Seaview do seriado de TV setentista "Viagem ao Fundo do Mar": por fora bem pequena e por dentro realmente imensa. O maior destaque dessa igreja encontra-se no altar principal, uma obra decorativa barroca feita em alto relevo na pedra, das mãos do artista italiano Lorenzo Mattielli em 1782, representando a queda de anjos e querubins do Céu. Meu Deus, que coisa linda!




A outra igreja, na verdade um dos anexos do Palácio de Hofburg, chama-se Augustinerkirche. Trata-se de uma das mais bem preservadas igrejas góticas do século XIV da Áustria. A capela principal contém urnas de prata que preservam os corações de vários membros da dinastia Habsburg. Creepy. A grande atração daqui é a escultura neo-clássica do italiano Antonio Canova, uma procissão de pessoas tristes e um anjo que parecem reais, de tão perfeitos. As estátuas foram encomendadas pelo marido da princesa Maria Christina, com a finalidade de adornar a tumba dela. Conhecida como Mimi, Christina era a filha favorita da legendária imperatriz austríaca Maria Theresa (as duas faziam aniversário no mesmo dia) e irmã da futura degolada Maria Antonieta, rainha da França. Com sua inteligência e lábia de queridinha da mamãe, venceu séculos de tradição de casamentos arranjados dos Habsburgs e convenceu Maria Theresa a dexá-la escolher seu próprio pretendente. Casou com o homem que amava, sujeito fiel que ficou ao seu lado até a sua morte. Suas irmãs, incluindo Maria Antonieta, nunca a perdoaram por seu sucesso no amor, mesmo depois da morte da mãe.




Pausa para um café. Os locais recomendam o restaurante Martinjak para se deliciar com a segundo doce mais tradicional da Áustria e muitas vezes servido como prato principal no almoço: o Apfelstrudel. Comer esse petisco morninho com café, em um ambiente tranquilo, com vista para a Ringstrasse através de um janelão, deveria ser um experiência obrigatória para todo turista. Para os que não conhecem, apfelstrudel é um tipo de pão doce de massa muito fina enrolado em camadas e recheado com pedaços de maçã cozida com canela, açúcar, nozes moídas, um tiquinho de rum e passas. Um massa de strudel tem como base farinha de trigo, manteiga e sal, preparada de tal modo que sua espessura deve ser bem fina, a ponto da massa parecer translúcida. Sua popularidade cresceu a partir do século XVIII e a receita mais antiga, guardada na biblioteca nacional, datada de 1696. Esse prato nacional austríaco também possui uma versão recheada de ricota, chamado Topfenstrudel, igualmente apreciado e idolatrado no país. Qualquer padaria ou confeitaria da Áustria oferece as duas variedades de strudel. Caminhando pelas ruas de Viena, volta e meia você se pega surpreeendido pelo cheiro dessa peça divina sendo assada.



Continuando com a exploração do centro histórico de Viena, um teatro notável da cidade que merece uma visita: o Burgtheater. Construído em 1741 é considerado o segundo teatro mais antigo do mundo ainda em funcionamento, depois do francês Comédie Francaise. O prédio todavia não corresponde ao original, destruído por um bombardeio aliado em 1945, mas uma réplica rigorosamente identica ao primeiro. Todas as peças apresentadas aqui rolam somente em Alemão, com preços camaradas (antre 4 e 44 Euros) apesar do luxo inerente ao lugar. Esse teatro é considerado a "casa" da famosa atriz alemã, Susanne Lothar (mais conhecida por sua interpretação perturbadora da primeira versão do filme cássico Funny Games) e do ator austriaco e "monstro sagrado" Klaus Maria Brandauer, que atuou em êxitos de público tais como Out of Africa e The Hunt for the Red October, além do clássico de 1981, Mephisto. Depois desse último, a experiência de vender a alma ao Diabo em troca de sucesso nunca mais seria a mesma na telona.




Outra igreja da região que vale uma visita - Maria Treu Kirche - conta com duas elegantes torres e um esplêndido afresco barroco multi-colorido pintado no teto em 1753 pelo grande artista austríaco Fran Anton Maulbertsch. Construída em 1698 pela ordem Piarista (Order of Poor Clerks Regular of the Mother of God of the Pious Schools), tem como obras notáveis um altar da crucificação datado de 1774, também pintado por Maulbertsch e, na pracinha em frente à igreja, uma majestosa estátua de Nossa Senhora à volta de anjos e santos. O pilar onde se encontra esta última foi erguida para celebrar o fim da epidemia de peste negra que assolou a cidade anos antes, em 1679, matando mais de 30,000 vienenses. Se quiser relaxar depois da visita, um café de mesmo nome, super disputado pelos locais para um papão de fim de tarde, fica bem em frente à saída.




Os dois principais museus da cidade parecem edificações gêmeas, posicionados um em frente ao outro, separados por uma praça. Um deles chama-se Kunsthistorisches, o maior museu de arte da cidade e que goza de grande prestígio internacional. De tão importante dedicarei uma entrada neste blog só para ele. O outro, Naturhistorisches, Museu de História Natural de Viena, foi inaugurado em 1889 para promover extensas coleções arqueológicas, antropológicas, zoológicas, geológicas e de mineralogia. Não tive tempo de visitá-lo. Uma pena. No centro da praça existe uma estátua da imperatriz Maria Theresa, grande nome da história Austríaca e a única soberana da dinastia Habsburg. Seu pai, o imperador Charles VI, não deixou herdeiros do sexo masculino, mas teve o cuidado de habilmente mudar uma lei tradicionalíssima que proibia o trono real para uma mulher. Como França e a Prússia desejavam tomar conta do imenso império Habsburgo, encontraram o pretexto perfeito para negar a ratificação de Maria Theresa como imperatriz. Isso levou toda a Europa à Guerra de Sucessão Austríaca, de 1740-48. Nas próprias palavras dela: "eu me encontrei sem dinheiro, sem um exército, sem experiência e conhecimento e, finalmente, sem qualquer conselheiro, já que todos esperavam para ver o que iria acontecer..." Porém, a despeito de todas as dificuldades, Maria conquistou poderosos aliados, como Inglaterra e Holanda (os dois já governados por mulheres) e mobilizou seu próprio povo para suportá-la. Mas como convenceu os húngaros - que faziam parte do império austríaco mas eram católicos demais para admitir uma mulher no poder - foi o seu momento mais espetacular. Ela viajou com seus filhos pequenos - sob imenso risco - até a Hungria e, diante dos nobres mais influentes desse país disse, mostrando suas crianças: "Preciso da sua ajuda para garantir o que é, por direito, deles". Uma lição e inspiração para todos que qualificavam mulheres naquele tempo como "fracas". Não ganhou a guerra, mas manteve a coroa. Sob sua tutela, o Império Austro-Húngaro experimentou um longo reinado (1740-80) de serenidade, riqueza e administração sensível e empática às necessidades do povo, mesmo durante tempos de guerra. Reformou as políticas de Educação (como obrigatoriedade escolar para meninos e meninas) e Saúde, trazendo grandes melhorias para seus súditos. No campo dos direitos civis, baniu a pena de morte do código penal austríaco. Declarou tortura e queima de bruxas procedimentos ilegais. Promoveu sobremaneira cultura e artes. Mozart realizou muitas performances para ela, que o adorava. Morreu em 1780, sem passar o desgosto de ver um de seus treze filhos (quatro morreram crianças), Maria Antoinette, ser guilhotinada durante a Revolução Francesa, em 1793.


Maria Theresa foi responsável também pela finalização das reformas de seu palácio favorito: o Schloss Schönbrunn. A mais ou menos 30 minutos (de metrô) do centro de Viena, o palácio é um dos mais famosos cartões postais da cidade e a atração vienense mais visitada. Além de gloriosos aposentos e salões, dentro do complexo existe uma atração extra: um museu de carruagens. Considerado pela UNESCO patrimônio histórico da humanidade e palácio de verão de vários monarcas da dinastia Habsburg, nasceu de uma mansão construída em 1569 pelo Imperador Maximiliano II. As grandes alterações que acabaram definindo o complexo em sua versão final foram feitas em 1696, pelo Imperador Leopoldo I, tentando ultrapassar em beleza o até então imbatível design to legendário Palácio de Versalhes, na França, e mais tarde por Maria Theresa, incorporando o estilo arquitetônico francês rococo. Poucos sabem, mas o único filho legítimo de Napoleão Bonaparte foi gerado de sua esposa austríaca, a princesa Maria Luisa. O Duque de Reichstadt ou "Rei de Roma" passou toda sua infância e juventude como prisioneiro virtual dentro do Palácio Schönbrunn, logo após seu pai sofrer exílio na ilha de Elba. Foi um menino infeliz e triste por causa do seu isolamento e morreu de tuberculose aos 21. Costumava dizer que seu único amigo era um passarinho de estimação.





Outro aposento famoso do Schönbrunn chama-se Spiegelsaal ou "sala dos espelhos". Foi aqui que um menino de seis anos deu seu primeiro concerto sentado em um piano para a Imperatriz Maria Theresa, em 1762. O nome dele? Wolfgang Amadeus Mozart. Depois da perfomance, ele se atirou no colo de sua majestade e deu-lhe um beijo no rosto. Marketing pessoal é tudo... Perto desse salão existe outro de importância histórica, o Blauer Chinesischer Salon ou "salão de porcelana azul", onde o Habsburg Karl I assinou em 1918, logo após a derrota austríaca na 1a Guerra, um documento de que não mais interferiria ou participaria em assuntos do Estado. Uma maneira de abdicar com classe. Sua rabiscada marcou o colapso do império Austro-Húngaro - ao custo de 10 milhões de mortos e 20 milhões de feridos - e o fim da dinastia que se manteve no poder por mas tempo no mundo: mais de seis séculos!




Um desbunde total, os jardins do palácio tomam no mínimo três horas de um turista amante do verde. Sugiro uma visita bem cedinho pela manhã, para curtir ainda mais a natureza moldada pelo homem em todo seu esplendor. Não me admira que tenha visto tantos locais correndo e caminhando por lá, tamanha a sensação de conforto. Com mais de um quilômetro quadrado, o jardim baseia sua estrutura em formas geométricas perfeitas, impecavelmente cuidadas: gramado, flores, arbustos e árvores. Fontes e esculturas espalham-se estrategicamente por toda à parte. Tem até um labirinto gigante feito de arbustose construído em 1695, como aquele do filme clássico “The Shinning”. “Ruas” e “Avenidas” para pedestres, ladeadas de árvores igualzinhas umas às outras, permitem um passeio que, no mínimo, te conduz ao devaneio.




Outra atração do parque anexo ao palácio construída em 1882, o Palmenhaus é uma estufa especializada em manter palmeiras e outras plantas tropicais. Os jardins também abrigam o zoológico mais aintigo do mundo (1752), o Tiergarten Schönbrunn. Não tive tempo de visitá-lo... Mas de todas as obras que compõem o complexo, a mais impressionate é a fonte toda em mármore representando o pedido de ajuda da belíssima ninfa do mar Thetis para Netuno (Neptunbrunnen), deus dos mares, para que seu filho Aquiles fosse protegido durante sua viagem marítima para Tróia. Aquiles quando criança foi mergulhado no Rio Estiges por ela, uma imortal, o que o tornou invulnerável. Chato que o pedido de Thetis não foi atendido: Aquiles morreu logo após a vitória dos gregos, vítima de uma flecha envenenada de Páris que acertou seu calcanhar, o único ponto vulnerável de seu corpo.




Bem no topo do complexo Schönbrunn, 60 metros morro acima, foi construído o maior Gloriette do mundo em 1775 para comemorar a vitória dos Austríacos contra a Prússia em 1757. A Prússia na época tinha um dos melhores exércitos do mundo e que, décadas depois, se tornaria a toda poderosa Alemanha, portanto a celebração é merecida. Tipo de monumento clássico em forma de pavilhão ou templo grego, o Gloriette fica em uma posição privilegiada que proporciona uma belíssima vista tanto do palácio e seus jardins, como da cidade de Viena. Maria Theresa e o imperador Franz Joseph I costumavam utilizar o Gloriette para tomar café-da-manhã e jantar ao pôr-do-sol. Vida dura... Atualmente um café para turistas funciona dentro do pavilhão. Os destaques desse ponto nobre vão para as estátuas de caráter militar feitas pelo famoso escultor austríaco von Hagenauer. Destruído durante a 2ª Guerra Mundial, o Gloriette foi reconstruído em 1947. Daqui sai uma trilha bem bacana que conduz a um passeio por dentro do bosque principal, onde se encontram ruinas romanas artificiais, construídas em 1778 como elemento de decoração. Por que ruínas romanas? Por séculos os Habsburgs tinha a idéia fixa de que eram os legítimos herdeiros do antigo Império Romano. Megalomania perde...


Retornando ao centro de Viena, decidi almoçar em um outro restaurante muito simples, porém favorito entre os locais, considerado uma hidden gem por sua comida boa e barata: o restaurante Amerlingbeisl. Além de servir almoço e jantar, o local também serve de centro cultural e bar, possuindo uma decoração bem pitoresca. As mesas de madeira ficam em um pátio espaçoso e você come ao ar livre os pratos da cozinha austríaca. O serviço é meio lento, mas muito cordial, em meio a uma atmosfera de paz e tranquilidade, cheia de estudantes duros. Não quis variar dessa vez e acabei encarando outro tradicionalíssimo Wiener Schnitzel acompanhado de batatas, por apenas cinco Euros.



Depois do almoço decidi visitar outro popular cartão postal da cidade, o Schloss Belvedere, construído em 1714 como palácio de verão do já citado príncipe Eugene de Savoy, que além de competente militar era também muito rico, granda essa fruto do espólio de várias guerra que combateu. Sua fortuna rivalizava a dos Habsburgs da época, por isso não foi problema nenhum construir esse mega palácio. A ironia é que, como era gay, não deixou nenhum herdeiro e tudo acabou voltando para as mãos dos Habsburgs. O complexo compõe-se de dois palácios ligados por um imenso jardim barroco em estilo francês, cheio de estátuas de inspiração greco-romana. Os tetos feitos de cobre em formato de tendas turcas representavam uma homenagem do arquiteto - Johan Lukas von Hildebrandt (o mesmo que ajudou a reformar o Schloss Schönbrunn) - à vitória de Eugene contra os otomanos em 1683. Além do formoso jardim, dos aposentos do palácio e da belíssima coleção de pinturas do séculos XIX e XX, destaco as estátuas das esfinges, meio leão, meio mulher, que guardam a parte superior de Belvedere. Mas não é só por causa do fantástico museu de arte que esse palácio tem um lugar especial no coração dos austríacos. Em 1955, de uma das sacadas de Belvedere, o chanceler Leopold Figl apresentou a uma multidão explodindo de alegria, o tratado "Staatsvertrag" assinado com as forças aliadas que ocupavam o país desde o fim da 2a Guerra Mundial, anunciando a indepedência da Áustria.




No interior do complexo, Unteres Belvedere, os destaques vão para: o teto do Marmorsaal (salão de mármore), um afresco multicolorido pintado por Martino Altomonte, celebrando o príncipe Eugene como o novo Apolo, líder das musas; A escultura em mármore criada por Balthasar Permoser, localizada no mesmo salão - "Apoteose do Principe Eugene" (1734); o teto da capela do Palácio, outro afresco bonito e detalhado, criado pelo artista Francesco Solimena; a coleção de pinturas do mestre simbolista austríaco Gustav Klimt, incluindo suas duas obras primas, "Judith I" (1901) e "O Beijo" (1908); a Sala Terrena, onde quatro estátuas em mármore de Hércules esculpidas por Lorenzo Mattielli configuram as colunas que sustentam o teto; e, finalmente, uma das obras primas do pintor austríaco Ferdinand Georg Waldmüller, "Manhã de Corpus Christi" (1857)

Belvedere possui uma extensa coleção de arte que data desde a Idade Média até os dias de hoje. Entre as minhas favoritas, estão: Susanna und die beiden Alten (1709) de Martino Altomonte (pseudônimo italiano de um austríaco), retratando o momento bíblico onde dois velhos voyeurs e tarados chantageiam uma hebréia casada que tomava banho no rio, estilo ou-dá-ou-contamos-para-o-seu-marido; Der heilige Sebastian und die Frauen (1746) de Paul Troger, mostrando algumas mulheres ajudando São Sebatião durante seu martírio; Schlummernde Frau (1849), a obra mais sexy de Johann Baptist Reiter; Beweinung Abels (1692), de Johann Michael Rottmayr, que pintou a dor de Adão e Eva pelo assassinato de Abel pelo próprio irmão; Der Triumph der Ariadne (1874) de Hans Makart, mostrando o momento que Ariadne - ex-amante traída e abandonada por Teseu em uma ilha deserta, conquista o coração de Baco e ganha uma coroa de ouro (depois de sua morte, essa coroa se transformaria em uma constelação); Die Niljagd (1876), outra belíssima obra de Markart; e o clássico absoluto, figurinha carimbada em todos os livros de história de 2o grau, Napoleon am Großen St. Bernhard (1801), de Jacques-Louis David, uma das cinco versões da pintura que apresenta Bonaparte em seu cavalo depois de cruzar os Alpes. O homem! o mito! a lenda...


Na região onde se localiza Belvedere, encontra-se a mais bela igreja da cidade (uma verdadeira façanha, em se tratando de Viena), Karlskirche, construída a partir de 1714 por ordem do imperador Karl VI. Apavorado com a matança provocada pela epidemia de peste negra em Viena, sua majestade imaginou que uma obra faraônica em homenagem a São Carlos "Karl" Borromeo ajudaria a parar a cavaleira do apocalipse. Afinal, em 1576, no auge da epidemia em Milão, o arcebispo Borromeo trabalhou incansável para tratar os doentes e enterrar os mortos, pessoalmente, sem qualquer medo de cair doente e sem poupar despesas (gastando do próprio bolso também), punindo todos os clérigos abaixo dele que fugiram de suas responsabilidades por causa da peste. Depois de 25 anos desde que a primeira pedra foi lançada, o imperador acabou construindo uma obra de arte de arquitetura barroca imponente e lindíssima que não pode ser ignorada da paisagem vienense. Seu interior comove até os mais brutos, graças a um desfile de adornos ricamente detalhados em madeira, estátuas, balcões em mármore, pinturas e afrescos coloridos no teto. Estes últimos me deixaram - sem sacanagem - por dez minutos completamente estático, enfeitiçado. Dá até para tomar um elevador e chegar bem perto dos frescos. É uma daquelas atrações turísticas das quais você entra e não quer sair mais. Vi várias pessoas às lágrimas ao apreciar tanta beleza. Absolutamente imperdível.






Eu me encontrava muito animado para o próximo e último passeio em Viena: um cruzeiro pelo Rio Danúbio. Basicamente por dois motivos. A suposta beleza dele, cantada milhões de vezes na valsa mundialmente conhecida Danúbio Azul, associada à possibilidade de admirar atrações turísticas da cidade às margens do rio. O outro motivo, a perspectiva história, a emoção de navegar em um rio tão importante para a Europa por séculos. Dentro dos países que falavam alemão no século XIX, o reino Habsburg possuía a alcunha de Donaumonarchie ou monarquia do Danúbio, a força que unia várias nações do império. Mas desisti. Segundo os locais, o trecho do Danúbio que corta Viena não é particularmente fantástico para sightseeing e o rio não era tão azul assim... Além do mais, tinha cinquenta motivos (50 Euros, o preço do ticket do barco para turistas) para não ir. Acabe