Fraude em vistos, operação da Policia Federal prende estelionatários fonte:
Diario da Manha l Agência de viagens providenciava autorização com documento falso. 50 goianos foram aos EUA no esquema l Polícia não descarta a possibilidade de investigar outros estabelecimentos em Goiás. 10 são indiciados
Vistos providenciados com documentação falsa e que serviram de entrada para cerca de 50 goianos nos Estados Unidos (EUA) estão sendo investigados pela Superintendência da Polícia Federal em Goiás (PF) e pela embaixada do país norte-americano. Como parte da Operação Everglades, três pessoas foram presas ontem em Goiânia por atuação no esquema. O dono da agência de viagens Viaje Bem, Fernando Oliveira Martins, sua funcionária Pollyane Gonçalves e o funcionário da Ideal Contabilidade, Francisco Júnior, foram indiciados por falsidade ideológica e falsificação de documentos. Fernando ainda responderá pelo envio de menores para o exterior com a finalidade de lucro.
Outras 10 pessoas foram indiciadas por falsificação de documentos. Os nomes dessas pessoas foram encontrados na Viaje Bem como solicitantes dos vistos falsos. A PF não descarta a possibilidade de investigar outras agências de viagens em Goiás, mas não confirma se o trabalho já vem sendo feito para não atrapalhar as investigações. A operação teve início em abril e contou com informações da Embaixada dos EUA, em Brasília. Quarenta policiais participaram da operação, que cumpriu, além dos três mandados de prisão, seis de busca e apreensão na Grande Goiânia. Há ainda o indício de falsificação de documentos de pessoas que estariam indo para o Canadá.
O esquema funcionava na agência Viaje Bem, na Rua 3, Centro. O dono da agência só atendia pessoas que eram indicadas por conhecidos. Antes de passar qualquer informação ao interessado, era necessário que este informasse como ficou sabendo do serviço. Fernando Martins cobrava R$ 150 para prestar uma espécie de “assessoria consular”. De acordo com o avanço do processo, o cliente pagava outras taxas de retirada e falsificação de documentos. De acordo com a PF, parte das falsificações de documentos era feita por Francisco Júnior, da Ideal Contabilidade, localizada no Centro. Fernando marcava reuniões na agência, onde entregava os documentos falsos e realizavam “treinamento” sobre o que os interessados deveriam falar na entrevista.
A forma de trabalho dos falsificadores foi gravada em áudio e vídeo pela PF. Um agente foi à agência Viaje Bem questionar sobre as formas de conseguir o visto sem os documentos necessários. Apesar de não dar detalhes de como o esquema funciona e se mostrar receoso, ele explica pontos que deixam claro a existência do esquema. Ele afirma duas vezes ao cliente que não há problemas e que mesmo sem comprovante de renda seria possível retirar o visto. Titular da Delegacia de Emigração da PF (Delemig) diz que os presos falsificavam carteiras de identidade, comprovantes de rendimento e até declarações de Imposto de Renda.
Ida de menores ao exterior sob apuração
A Polícia Federal também investiga a ida irregular de oito crianças para os Estados Unidos nos últimos três anos. O delegado Luciano Dornelas diz que dois casos já foram confirmados. Duas crianças menores de 11 anos, que seriam irmãs, teriam embarcado em janeiro deste ano para a América do Norte com documentação falsa. O próprio dono da agência Viaje Bem, Fernando Oliveira Martins, teria ido aos EUA levar os menores. Ele teria se passado por pai ou responsável delas.
A investigação sobre as outras seis crianças ainda segue. Nenhum pai ou responsável foi encontrado no Brasil ou Estados Unidos ainda. O delegado Luciano Dornelas não confirma, mas essas crianças podem ser filhas de pais brasileiros que moram nos Estados Unidos. Elas teriam ido de maneira irregular para morar com os pais. As informações foram repassadas à imprensa em entrevista coletiva na manhã de ontem. Além do delegado de Emigração, também participaram o superintendente regional da Polícia Federal em Goiás, Valdson José Rabelo, e o adido da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, James Jhonson.
everglades
A Operação Everglades recebeu esse nome em alusão à região pantanosa e perigosa situada no extremo sul do Estado da Flórida, nos Estados Unidos. De acordo com a Assessoria de Comunicação da PF, o nome simboliza o esquema fantasioso de montagem de documentos que permitiria ao imigrante ilegal passar sobre a região citada e adentrar solo alienígena, o que não ocorreu desta vez.
Agente se passa por cliente e grava conversa
A gravação da conversa entre o agente de viagens Fernando Oliveira Martins com um agente da Polícia Federal (PF) que se passou por suposto interessado em embarcar para os Estados Unidos foi cedida à imprensa pela PF. A gravação começa depois da conversa já iniciada. Eles falam sobre os caminhos para se chegar ao visto irregular. Mesmo receoso, Fernando afirma que qualquer pessoa consegue o visto para entrar nos EUA. Confira a íntegra do diálogo.
Fernando Martins: Vou prestar uma informação pra você. Essa informação é passada pela assessoria consular lá. Aí, no decorrer da conversa, se precisar fazer alguma coisa na sequência, desconta dos R$ 150.
Cliente: Sem problema, tranquilo.
Fernando: Mas é importante saber quem te indicou, porque, como é muito sigiloso, a gente tem que ter as precauções contra todos que vêm aqui, pra saber quem foi...
Cliente: Mas você não pode passar pelo menos quanto vai ficar, passar os valores das passagens?
Fernando: Passagem é o último. Não adianta ver as passagens sem saber o que é que você vai... Porque passagens para os Estados Unidos está o quê? Para onde você quer ir?
Cliente: Uai, eu tô preferindo chegar em Washington...
Fernando: Se for capital, fica uns R$ 3,7 mil.
Cliente: O detalhe é o seguinte, eu sou autônomo e ele (quem o teria indicado à agência) comentou comigo até dessa assessoria consular; eu acho que é mais difícil para um autônomo conseguir o visto...
Fernando: Não, não, não. Todo mundo dá pra tirar, porque eu trabalho de uma maneira... Certo? Não posso dar nenhuma explicação geral sem entrar em particularidades mais perigosas... Aí, coloca lá na assessoria. Vou esclarecer tudo que você precisa saber, mas aí para entrar em detalhes mais agudos, eu preciso ter a indicação...
Cliente: Eu tenho que pagar quando desenrolar o documento (R$ 150 cobrados por Fernando para prestar a “assessoria consular”)?
Fernando: Não, aquilo lá é para pegar as informações. Quando eu for conversar com vocês, vai levar uma hora, uma hora e meia pegando informações. Eu vou esmiuçar os detalhes e aí ela (aponta para a funcionária da agência) vai levar para outra agência e a gente fica só com o trabalho de informar. Aí, no decorrer, vai ter uma oportunidade de trabalho (que seria a falsificação)? Sim. Aí eu desconto dos R$ 150. Agora, se você puder pegar o nome de quem te indicou, ou pedir pra ela me informar, eu já entro direto com o pedido seu.
A conversa segue por mais alguns minutos, e o cliente conta que não tem comprovante de renda e que trabalha informalmente. Fernando pergunta se ele é formado e onde estudou. O cliente insiste em ter mais respostas, mas o dono da agência recusa falar mais sem a indicação de quem falou sobre os serviços que presta.
Fernando: É tudo limpo. Minha preocupação, primeiro, é quem é você? Porque entra policial civil, federal... Primeiro preciso saber com quem tô conversando para entrar nos detalhes da conversa.
Cliente: Então, eu vou pegar a indicação direitinho e voltar.
Casal preso na Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília
Um casal de goianos, proveniente do interior do Estado, foi preso na terça-feira, 23, na Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília. Além deles, outras duas mulheres de Minas Gerais e do Espírito Santo apresentaram extratos bancários, declaração de Imposto de Renda e comprovantes de renda falsos.
A delegada da Delegacia de Defraudação e Falsificação, Ivone Rosseto, disse que esse é um esquema cada vez mais frequente. Pessoas de todo o País buscam esse tipo de serviço irregular para tentar entrar nos Estados Unidos. A delegada disse que uma coincidência está sendo observada nos casos, que seria a mesma fonte de falsificação. Também foi notado que pessoas de determinados locais apresentavam mais ou menos o mesmo tipo de documentação com indício de fraude.